Hugo Andreolly
Diretor-presidente
Fatos Relevantes de 2025
Em 2025, o mercado de Meios Eletrônicos de Pagamento no Brasil se consolidou como um dos mais dinâmicos do mundo, registrando crescimento expressivo em transações com cartões e, em especial, na adoção de pagamentos por aproximação (contactless). Segundo dados oficiais da ABECS, os pagamentos por aproximação cresceram de forma acelerada, demonstrando uma mudança profunda nos hábitos de consumo e na preferência dos usuários por experiências mais rápidas, seguras e convenientes.
Além disso, o valor total transacionado com cartões, incluindo crédito, débito e pré-pagos, registrou crescimento consistente, superando a marca de R$ 2,2 trilhões já no primeiro semestre de 2025, com destaque para o cartão de crédito como principal meio utilizado pelos consumidores brasileiros. Essa expansão reflete tanto a maturidade do setor quanto a capacidade das instituições de pagamentos de adaptar produtos e serviços às expectativas dos clientes em um cenário pós-pandemia, com aceleração da digitalização e maior presença de soluções omnichannel.
O forte desempenho dos pagamentos por aproximação, impulsionado por tecnologias NFC em cartões e dispositivos móveis, sinaliza um movimento de mercado em direção à conveniência integrada ao cotidiano do consumidor, reduzindo fricções no ponto de venda e acelerando a transição para modelos de pagamento cada vez mais digitais e intuitivos.
A BRBCard em 2025/26
2025 foi um ano de consolidação estratégica e maturidade operacional. Avançamos na busca por eficiência, rentabilidade e sustentabilidade dos modelos de negócio, em um ambiente ainda marcado por juros elevados, pressão por custos e consumidores mais seletivos.
Houve progresso relevante na digitalização da jornada do cliente, no fortalecimento dos modelos de gestão de risco, no uso de dados para decisões comerciais e na ampliação do portfólio de produtos além do cartão tradicional, como soluções integradas de pagamentos, benefícios, adquirência e serviços financeiros embarcados.
Para 2026, a expectativa é de crescimento mais qualificado, com foco em:
- Rentabilidade ajustada ao risco;
- Maior sofisticação analítica;
- Consolidação de players;
- Evolução regulatória mais alinhada à complexidade do setor.
Vamos priorizar a diferenciação real de proposta de valor e aprofundamento do relacionamento com o cliente.
Assimetria Regulatória
Na minha avaliação, apesar dos avanços, bancos e fintechs ainda não operam em condições plenamente equivalentes, especialmente sob os aspectos prudencial, regulatório e tributário.
Instituições tradicionais continuam sujeitas a:
- Requisitos de capital mais rigorosos;
- Obrigações de governança e controles internos mais complexos;
- Maior carga regulatória e de supervisão contínua.
Para um ambiente mais equilibrado, são necessários:
- Proporcionalidade regulatória baseada em risco e complexidade real;
- Harmonização de exigências entre modelos de negócio similares;
- Maior clareza sobre responsabilidades prudenciais em arranjos híbridos.
O objetivo não deve ser nivelar por baixo, mas nivelar com coerência, preservando estabilidade, competição e inovação.
Cartões para a Alta Renda
Nos últimos dois anos, vimos um boom de lançamentos de cartões voltados ao público de alta renda com mais pontuação, acesso a salas VIP e experiências exclusivas.
Entendo que o crescimento dos cartões de alta renda é viabilizado por:
- Segmentação mais precisa de clientes;
- Cross-subsídios entre produtos;
- Receitas acessórias (intercâmbio qualificado, parcerias, experiências);
- Maior uso de dados para gestão de limite, risco e engajamento.
Esses produtos deixam de ser apenas instrumentos de pagamento e passam a ser plataformas de relacionamento e fidelização.
Olhando à frente, acredito que a tendência não é de desaceleração, mas de sofisticação seletiva:
- Mais foco em experiência, curadoria e personalização;
- Modelos economicamente sustentáveis.
A competição se desloca da “quantidade de benefícios” para a qualidade percebida e relevância real para o cliente.
Inteligência Artificial
Acredito que nos próximos anos a IA continuará ocupando um espaço cada vez mais importante, principalmente em áreas estratégicas como:
- Personalização dinâmica de ofertas e limites;
- Prevenção preditiva à inadimplência e fraude;
- Orquestração omnichannel da jornada do cliente;
- Precificação inteligente e gestão de rentabilidade por cliente;
- Atendimento personalizado e interativo.
Hoje, concentramos a maior parte de uso de IA em eficiência operacional. O próximo salto competitivo virá quando a IA for aplicada de forma integrada à estratégia comercial, à experiência do cliente e à tomada de decisão em tempo real. Já temos agentes de IA que avaliam oportunidades de participação em editais de credenciamento, outros que dão suporte no atendimento aos times internos e um agente específico que avalia as notas e comentários nas redes sociais e aplicativos e prepara respostas ou direciona para os times técnicos responsáveis.
Cartões de Benefícios
Na minha avaliação, as mudanças introduzidas pelo Decreto nº 12.712/25 representam muito mais um processo de modernização do que uma interferência direta no mercado de benefícios. Entendo que o novo marco regulatório endereça distorções históricas do setor ao ampliar a transparência, estimular a interoperabilidade entre os arranjos e promover um ambiente competitivo mais equilibrado. Para as empresas de benefícios, o decreto cria oportunidades relevantes de ganho de escala e expansão de mercado, ainda que exija adaptação a um cenário mais competitivo e menos baseado em modelos fechados.
Do ponto de vista das credenciadoras, vejo um movimento positivo de ampliação da aceitação e de aumento da eficiência operacional. Já para as empresas contratantes dos benefícios, as novas regras tendem a fortalecer o poder de escolha, melhorar a relação custo-benefício e incentivar soluções mais flexíveis. Para o usuário final, o principal avanço está na maior liberdade de uso e em uma experiência mais simples e integrada.
Reconheço que, no curto prazo, o setor enfrentará ajustes e pressões, mas acredito que, nos médio e longo prazos, as mudanças contribuem para um ecossistema mais eficiente, inovador e sustentável.
Open Finance
Na minha visão, o Open Finance é uma das iniciativas mais transformadoras do sistema financeiro brasileiro e tem potencial direto para ampliar a principalidade e o engajamento dos clientes junto às instituições de Meios Eletrônicos de Pagamento. Ao permitir o compartilhamento estruturado de dados, com consentimento do cliente, o Open Finance cria condições para ofertas mais personalizadas, decisões de crédito mais precisas e experiências financeiras mais integradas.
Destaco alguns pontos centrais desse processo:
- Principalidade baseada em dados, e não apenas em produtos: instituições que souberem transformar dados em propostas de valor relevantes tendem a ocupar uma posição central na vida financeira do cliente.
- Melhoria significativa na experiência do cliente, com jornadas mais simples, limites mais adequados ao perfil real de renda e comportamento e ofertas alinhadas às necessidades individuais.
- Aumento do engajamento e da retenção, à medida que o cliente percebe benefícios concretos no compartilhamento de suas informações.
- Evolução da gestão de risco e crédito, com análises mais completas, redução de assimetrias de informação e decisões mais assertivas.
Apesar desse potencial, entendo que o setor ainda está distante do uso pleno do Open Finance. Numa escala de 0 a 10, avalio que estamos hoje em torno de 4, com a maior parte das instituições utilizando o sistema de forma limitada, muitas vezes restrita ao cumprimento regulatório ou a casos de uso pouco perceptíveis para o cliente final.
Acredito que o uso mais amplo e estratégico do Open Finance deve ocorrer em um horizonte de 2 a 3 anos, condicionado à evolução cultural dos consumidores, ao amadurecimento dos modelos analíticos e, principalmente, à criação de propostas de valor claras, simples e tangíveis. O Open Finance, a meu ver, não é apenas uma infraestrutura tecnológica, mas um novo modelo de relacionamento entre instituições financeiras e clientes.