Henrique Marise
Gerente de Cartões
Fatos Relevantes de 2025
O marco de cinco anos do Pix nos traz a oportunidade de analisar mais a fundo as consequências do seu estrondoso sucesso, algumas esperadas, outras nem tanto. Desde o início, o que mais chamou a atenção foi como o Pix foi moldado para o sucesso: transferências instantâneas, custo zero para o consumidor, interoperabilidade e jornadas de uso padronizadas entre as instituições. Esses fatores transformaram o hábito do brasileiro de movimentar dinheiro e também de consumir.
Do lado dos estabelecimentos, o Pix ajudou a reduzir custos operacionais em várias etapas do processo e se consolidou como o meio de pagamento preferido dos comerciantes. Já as instituições financeiras encontraram formas de gerar receita com o Pix, como a oferta de crédito integrada à jornada de pagamento. Além disso, houve ganhos de eficiência. No caso da Midway, por exemplo, o pagamento de fatura via Pix representa um verdadeiro ganha-ganha: o cliente recompõe seu limite de forma imediata, a empresa recebe com mais eficiência e reduz os custos de liquidação.
O crescimento do mercado de cartões, que deve atingir valores próximos a R$ 5 trilhões em 2025, mantendo a expansão acima de dois dígitos, evidencia da robustez desse setor no Brasil. Esse desempenho se deve à eficiência dos players, que há décadas conseguem crescer mesmo em cenários adversos para concessão de crédito e diante da concorrência de outros meios de pagamento. Mesmo o cartão de débito, que deve se manter estável em volumetria em 2025, acumulou crescimento superior a 10% desde o lançamento do Pix e hoje movimenta mais de R$ 1 trilhão por ano.
O recuo estratégico do Drex, divulgado pelo Banco Central no fim de 2025, reforça a reflexão de que inovação ou novas tecnologias, por si só, não geram necessariamente ganhos de forma instantânea. Muitas vezes, são necessários ajustes para que se torne viável sob a ótica mercadológica. Isso, no entanto, não diminui o potencial da ideia do Drex, apenas indica que será preciso encontrar uma nova forma de implementá-lo.
A Midway em 2025/26
O ano de 2025 foi muito importante para a Midway, período em que alcançamos resultados relevantes em termos de rentabilidade, com crescimento de receitas aliado a um rigoroso controle de custos e PDD.
Ampliamos ainda mais nossa participação no varejo, aspecto estratégico para o grupo e razão primeira da nossa existência, em paralelo avançamos na oferta de produtos financeiros aos clientes do nosso balcão. Entre os destaques, lançamos nossa plataforma de consignado, a wallet e o cartão com limite garantido, que assegura acesso ao crédito para praticamente 100% dos clientes do varejo.
Para 2026, estamos preparando o reposicionamento do nosso cartão bandeirado, responsável pela maior carteira de crédito e maior fonte de receita da Midway. Entendemos que, para acompanhar o mercado, precisamos ir além do relacionamento habitual com os clientes pelo varejo, expandindo nossa oferta de serviços digitais no aplicativo. O objetivo é entregar mais funcionalidades e uma experiência personalizada, acompanhando o ciclo do cliente com a gente de forma customizada. Para viabilizar essa evolução, avançamos em 2025 na evolução da nossa plataforma tecnológica de processamento de cartões, garantindo suporte às novas jornadas que queremos oferecer.
Também vamos reformular a proposta de valor do produto. Em 2025, migramos 100% do portfólio para a categoria Gold e, em 2026, vamos potencializar os benefícios do cartão integrando todos os pontos do ciclo de vida do cliente à plataforma de benefícios da Riachuelo, o Riachuelo Fashion Club. Atualmente, apenas o uso do cartão nas lojas é premiado com 10% de cashback que é utilizado em resgates nossas lojas e e-commerce. Queremos que o cliente seja reconhecido não apenas nas compras na Riachuelo, mas também em outros momentos da sua jornada conosco, como por exemplo na aquisição do cartão e no pagamento da fatura.
Assimetria Regulatória
Definir regras que busquem eliminar barreiras de entrada e reduzir a concentração bancária é uma agenda que interessa ao Bacen. Com essa atuação, busca-se melhorar a qualidade dos serviços prestados e, principalmente, reduzir o custo do crédito na ponta final. Considero que essa agenda teve muito sucesso no objetivo de aprimorar os serviços: hoje, o consumidor brasileiro tem acesso fácil e barato a serviços financeiros e, em comparação com consumidores de outros países, leva grande vantagem nesse aspecto.
Cartões para a Alta Renda
Esse é um movimento que deve continuar, ainda mais com a hiperpersonalização da experiência cada vez mais factível e o nível de exigência desse cliente cada vez maior. Aqui na Midway, por exemplo, estamos abertos a todos, seguimos o posicionamento do nosso varejo, que é atender o público brasileiro com uma marca nacional. Estamos distantes da disputa pela oferta de produtos financeiros voltados ao público de altíssima renda, que é onde temos visto o mercado atualmente com muitas novidades. Isso, porém, não significa que estamos indiferentes aos clientes de maior poder aquisitivo.
Dentro do grupo, contamos com a Casa Riachuelo e a Cartes, que alcançam esse público no varejo. Diante disso, podemos, e vamos, nos apropriar desse fator para atender e conquistar cada vez mais segmentos.
Inteligência Artificial
Vejo sim a IA como um vetor de competição e é verdade que, hoje, os maiores ganhos que ela já trouxe estão na melhoria da eficiência interna. Nós, aqui na Midway, já temos casos concretos em que o uso da IA acelerou o desenvolvimento de tecnologia, por exemplo, aplicamos com sucesso na criação do nosso Design System.
Focado no mercado de meios de pagamento, de forma prática, a IA pode ajudar muito nas conciliações, que hoje é uma dor em quase todos os lugares, onde horas e horas de trabalho são alocadas diariamente pelas instituições. Com as ferramentas de IA, temos a oportunidade de transformar essas horas de trabalho em segundos.
Outra área em que a IA pode ser aproveitada é na gestão do ciclo de crédito do cliente. Com a IN4966, a gestão do limite concedido ao cliente se tornou mais estratégica e com efeito direto no P&L. A IA com sua capacidade de gerar hiperpersonalização, pode ajudar o gestor de portfólio de cartões a administrar melhor o relacionamento com o cliente, disponibilizando um limite adequado às suas necessidades e flexível às variações normais do uso do cartão.
Open Finance
Dentro da escala proposta, vejo que provavelmente estamos no nível 1 ou 2, não pelos resultados que o mercado vem apresentando nos últimos anos, mas pelo potencial projetado. O ótimo desempenho do Pix no mercado criou a expectativa de que o Open Finance seguiria a mesma curva de adoção e impacto, mas sabemos que não está sendo assim.
No início, tivemos bastante dificuldade em padronizar os dados dos clientes no Open Finance, o que inviabilizou um dos maiores benefícios que ele poderia trazer: impulsionar e baratear o crédito. Hoje, o cenário é muito melhor, embora ainda haja grande potencial a ser explorado.
Onde vemos o Open Finance gerar mais resultados é na função de iniciador de pagamentos (ITP). Essa funcionalidade trouxe benefícios claros para o usuário e, com as instituições financeiras investindo em experiência e incentivando o cliente a utilizá-la, tornou-se um catalisador de engajamento. Os números são muito positivos e, por isso, acredito que nesse aspecto o Open Finance, no curto prazo, deve alcançar uso pleno com cada vez mais casos de uso em que o cliente opta por adotar um novo hábito dado a tecnologia.