Marcio Recalde
Diretor-presidente
Fatos Relevantes de 2025
O ano de 2025 foi marcado por transformações importantes no ecossistema financeiro brasileiro, impulsionadas tanto por mudanças regulatórias quanto por movimentos estratégicos relevantes no mercado de meios eletrônicos de pagamento.
Entre os temas que ganharam maior destaque esteve a regulação do modelo de Banking as a Service (BaaS), cuja expansão evidenciou a necessidade de um arcabouço normativo específico. À medida que empresas de tecnologia e varejo passaram a ofertar serviços financeiros a partir da licença de bancos parceiros, tornou-se imprescindível estabelecer critérios claros de responsabilidade, padrões mínimos de governança e maior transparência ao consumidor. Além disso, a criação de regras uniformes busca equilibrar a competição entre instituições tradicionais e novos entrantes, reduzindo riscos operacionais e mitigando arbitragem regulatória. A expectativa é que a regulação do BaaS reforce a solidez do sistema e permita que a inovação avance de forma sustentável.
Em paralelo, o mercado competitivo assistiu ao fortalecimento da estratégia de cartões voltados ao segmento de alta renda. Bancos intensificaram o lançamento de produtos premium, apostando em ofertas mais sofisticadas como programas de recompensas robustos, benefícios exclusivos, maior presença em salas VIP e experiências diferenciadas que reforçam o posicionamento das marcas. Esse movimento reflete a busca por maior engajamento, fidelização e rentabilização de clientes de maior valor, consolidando tendências observadas nos últimos anos e elevando o nível de competição no público de renda alta e superalta renda, cuja influência é significativa para a percepção de toda a indústria de cartões.
Outro marco relevante de 2025 foi a nova regulamentação do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), formalizada pelo Decreto 12.712/2025. A reformulação tende a transformar profundamente os arranjos de vale-refeição e vale-alimentação ao introduzir a interoperabilidade obrigatória entre bandeiras, encerrar práticas de exclusividade e estabelecer tetos para taxas cobradas. Essas mudanças buscam promover maior transparência, estimular a concorrência e trazer eficiência para toda a cadeia de benefícios.
Para além desses três temas, não podemos deixar de mencionar a reconfiguração do crédito, que ganhou força com as novas regras para rotativo e parcelado, que somadas à expansão de soluções como Credit as a Service e BNPL (Buy Now, Pay Later), têm ampliado alternativas e modernizado a oferta de crédito no país. Paralelamente, a consolidação da inteligência artificial e dos meios digitais reforçou o uso de carteiras digitais, pagamentos por aproximação, ecommerce e sistemas antifraude em tempo real, fortalecendo a complementaridade estratégica entre cartões e Pix, consolidando um ecossistema mais integrado e eficiente.
A CAIXA Cartões em 2025/26
A CAIXA Cartões encerrou 2025 com marcos determinantes para o nosso posicionamento e para a experiência dos clientes. Foi o ano em que elevamos a proposta de valor no crédito, internalizamos operaçõeschave e abrimos um novo capítulo na fidelização dos nossos públicos.
No eixo operacional, concluímos a migração da gestão dos cartões de crédito e débito CAIXA para a CAIXA Cartões, movimento estruturante da verticalização que avançou sem qualquer impacto para os clientes. Esse passo aprofundou eficiência, escalabilidade e capacidade de aprimorar jornadas.
Em outubro, lançamos o CAIXA ÍCONE Visa, um cartão de alta renda, com design metálico, que simboliza nosso avanço no segmento premium. O produto chegou ao mercado com diferenciais competitivos, acúmulo de 5 pontos por dólar gasto e 6 pontos em compras internacionais, acesso ilimitado a salas VIPs para titular e adicionais, IOF zero em compras internacionais, além dos benefícios Visa Infinite e vantagens adicionais sobre anuidade, como cashback, reforçando nossa ambição de fortalecer o relacionamento e entregar excelência em serviços para esse público.
Ainda em 2025, demos início ao Programa de Vantagens UAU CAIXA, lançando sua fase piloto e a primeira fase pública. O programa reforça nossa estratégia de relacionamento ao oferecer um marketplace exclusivo e os Pontos Uau, que podem ser trocados por produtos, experiências, viagens, cashback e benefícios digitais, além de permitir transferências para múltiplos parceiros. A iniciativa inaugura uma nova lógica de fidelização no conglomerado CAIXA e seguirá em expansão contínua ao longo dos próximos ciclos.
Ou seja, em 2025, fortalecemos nossa identidade institucional, internalizamos capacidades estratégicas e redefinimos nossa experiência de relacionamento, com ações que proporcionaram um crescimento no volume financeiro de transações com cartões de crédito acima da média de mercado, ampliando nossa participação nesse setor altamente competitivo.
Já 2026, será o ano de focar no fortalecimento da experiência do cliente, simplificando jornadas e entregando interações mais personalizadas e fluidas, sempre priorizando qualidade e proximidade. A inovação, aliada às melhorias contínuas em nossa operação, proporcionará uma evolução nas jornadas digitais, a fim de oferecer mais praticidade, integração e funcionalidades inteligentes, reunindo em um único ambiente tudo o que o nosso cliente precisa para gerenciar seus cartões e realizar transações com agilidade. Em síntese, esse será o ano de acelerar, consolidar ganhos e sustentar um crescimento consistente no mercado de cartões, ampliando nossa competitividade e oferecendo soluções diferenciadas que gerem valor tangível para os diversos segmentos que atendemos.
Assimetria Regulatória
A discussão sobre assimetria regulatória entre bancos e fintechs permanece central no setor financeiro brasileiro, sendo que o Banco Central (BCB) tem desempenhado um papel fundamental em aproximar esses dois mundos. A regulação proporcional impulsionou o crescimento das fintechs sem abrir mão da estabilidade do sistema — um equilíbrio que o BCB tem conseguido conduzir com responsabilidade e visão de futuro.
Ao mesmo tempo em que mantém padrões rigorosos para instituições com maior impacto sistêmico, como os bancos tradicionais, o BCB também estruturou um ambiente que permitiu o florescimento de novos modelos digitais. Esse movimento ampliou a competição e estimulou a inovação.
A expansão do Banking as a Service (BaaS) reforça a importância do BCB como mediador de interesses, tendo em vista que o modelo traz ganhos expressivos de acesso e diversidade de ofertas, mas também novos desafios sobre papéis e responsabilidades. Nesse contexto, uma regulação específica pode ajudar a reduzir incertezas e fortalecer a confiança entre todos os participantes — algo que o Banco Central tradicionalmente faz de forma técnica, transparente e dialogada.
Da mesma forma, avanços em temas como supervisão proporcional, harmonização tributária e padrões mínimos de governança em ecossistemas digitais caminham na direção do que o BCB sempre buscou: um sistema financeiro inovador, inclusivo, competitivo e seguro, reforçando a solidez que caracteriza o sistema financeiro brasileiro.
Cartões para a Alta Renda
O mercado de cartões para o público de alta renda passou por uma expansão expressiva nos últimos anos, marcada por produtos mais sofisticados, maior pontuação e um conjunto crescente de benefícios premium, como acesso a salas VIP e experiências exclusivas. Esse movimento não é apenas uma disputa por cartões mais atrativos, mas parte de uma estratégia deliberada dos emissores para aprofundar o relacionamento com clientes de maior potencial financeiro, usando o cartão como porta de entrada para uma oferta mais ampla de investimentos, serviços personalizados e produtos de maior rentabilidade.
A viabilização econômica desse portfólio turbinado se apoia em três fundamentos. Primeiro, o fortalecimento do relacionamento: ao concentrar o cliente em segmentos como Private ou Prime, os bancos compensam os custos dos benefícios com maior rentabilidade gerada pelo uso do crédito e pela expansão do portfólio financeiro. Segundo, acordos globais e negociações em larga escala permitem reduzir o custo unitário de acessos VIP, seguros e assistências, tornando viável oferecer vantagens robustas com eficiência. Terceiro, o comportamento de consumo da alta renda — caracterizado por gastos elevados — gera receitas relevantes via intercâmbio, sustentando programas mais agressivos de recompensas.
Para frente, a tendência é de intensificação, e não de acomodação. O mercado deve entrar em uma fase de maior sofisticação, com produtos mais nichados dentro do próprio segmento de alta renda. Em vez de um único cartão topo de linha, podem surgir portfólios especializados para viajantes frequentes, investidores, executivos ou clientes focados em experiências específicas. A disputa para ser o cartão principal do cliente também deve se acirrar, impulsionando diferenciais como pontuação mais alta, isenção vinculada ao relacionamento, benefícios internacionais aprimorados e novos níveis “ultra-high” acima dos tradicionais Black e Infinite.
Inteligência Artificial
A inteligência artificial (IA) já impulsiona ganhos importantes no setor de pagamentos e seguirá, cada vez mais, em uma crescente. O mercado começa a migrar de usos centrados em eficiência para aplicações estratégicas, alinhadas às principais tendências globais que devem moldar 2026. Uma delas é o fortalecimento do agent commerce, em que a IA passa a executar transações de forma autônoma, antecipando necessidades e criando jornadas totalmente fluidas. Outra é a integração crescente entre criptomoedas e o comércio tradicional, com a IA atuando como ponte para avaliar risco, otimizar liquidez e conectar o mundo tokenizado ao ambiente convencional de pagamentos.
O avanço da identidade digital também será decisivo. Modelos combinando biometria, comportamento e contexto tornam a autenticação mais segura e instantânea, reduzindo atrito e fortalecendo o combate a fraudes. Paralelamente, a economia circular ganha espaço, e a IA se torna um motor para orientar escolhas de consumo mais sustentáveis, recomendando serviços, incentivos e até novos modelos de compra e recompra de forma personalizada.
A personalização, aliás, é um dos eixos mais promissores. Com IA, pagamentos, benefícios e riscos podem ser calibrados em tempo real, criando limites inteligentes, ofertas sob medida e jornadas que se adaptam à vida de cada cliente. Isso se conecta diretamente ao avanço da economia instantânea, que exige decisões rápidas, roteamento inteligente e integração fluida entre todos os players do ecossistema.
Temos visto que o setor de pagamentos se prepara para um ciclo de transformação liderado pela IA, que ampliará autonomia, conectividade, segurança e personalização. Assim, as instituições que conseguirem combinar dados, tecnologia e experiência em uma visão integrada estarão à frente na construção desse novo padrão de mercado — mais inteligente, inclusivo e instantâneo.
Cartões de Benefícios
O decreto poderá trazer uma nova dinâmica ao mercado, especialmente porque as regras de interoperabilidade, os limites para taxas e o novo prazo de liquidação tendem a reduzir diferenças entre os modelos de arranjo. À medida que esses dispositivos forem sendo implementados, o setor pode vir a experimentar maior equivalência entre emissores e credenciadores, com impactos potenciais sobre preços, prazos e competitividade. Embora ainda seja cedo para afirmar como essas mudanças se consolidarão, o conjunto das medidas poderá incentivar ajustes operacionais e estratégicos entre os participantes, o que pode resultar em um ambiente mais padronizado e integrado, ainda que a intensidade desses efeitos dependa da forma como a regulamentação será efetivamente incorporada pelo setor.
Open Finance
O Open Finance representa uma inflexão estrutural no relacionamento entre instituições financeiras e clientes. Ao permitir que o próprio usuário compartilhe seus dados de forma segura e integrada entre diferentes instituições, transforma a informação financeira em um ativo circulante, capaz de reconfigurar completamente a forma como serviços são concebidos e entregues. Esse novo paradigma aprofunda a compreensão sobre a vida financeira dos clientes e abre espaço para soluções mais personalizadas, relevantes e alinhadas ao contexto real de cada indivíduo ou empresa. Assim, bancos e fintechs passam a ter condições de transcender a lógica transacional e construir um relacionamento baseado em presença contínua, conveniência e verdadeira aderência às necessidades do cliente.
É justamente essa capacidade de personalização e contextualização profunda que torna o Open Finance uma das principais alavancas para ampliar principalidade e engajamento. Com dados integrados, as instituições conseguem identificar oportunidades com precisão, antecipar demandas e oferecer soluções no momento exato em que o cliente precisa. Essa entrega proativa e inteligente reposiciona o papel da instituição na vida financeira do usuário, consolidando relevância e frequência de interação — elementos essenciais da principalidade.
Embora ainda haja espaço para evolução, o cenário atual já demonstra avanços importantes na direção certa. A infraestrutura regulatória e tecnológica brasileira, uma das mais robustas do mundo, tem permitido que instituições testem, validem e ampliem casos de uso cada vez mais relevantes. Jornadas estão sendo simplificadas, experiências começam a se tornar mais fluidas e o cliente — pessoa física ou jurídica — já começa a perceber valor em aplicações práticas como aprimoramento de ofertas, decisões de crédito mais precisas e facilidades em pagamentos. O movimento é consistente: o mercado está aprendendo rapidamente, ajustando modelos e construindo soluções mais intuitivas, o que sinaliza uma trajetória positiva de maturidade.
Olhando para o horizonte, tudo indica que o uso pleno do Open Finance deve ganhar tração nos próximos anos, à medida que jornadas se tornem ainda mais intuitivas, integradas e automatizadas. Funcionalidades como pagamentos integrados, transações sem redirecionamento e mecanismos avançados de automação financeira — já em desenvolvimento — devem acelerar esse processo. A evolução deverá ser impulsionada pela consolidação de casos de uso de impacto direto e por uma comunicação mais clara sobre segurança, utilidade e valor agregado do compartilhamento de dados. Certamente, quando essa convergência ocorrer, o sistema se tornará a base para uma nova lógica de principalidade no setor financeiro brasileiro.