Marcelo Annarumma
Vice-Presidente Sênior, Payment Services LatAm
Fatos Relevantes de 2025
Em 2025, o mercado de Meios Eletrônicos de Pagamento no Brasil continuou a se transformar rapidamente, como nos anos anteriores, com fortes movimentos em inovação, inclusão financeira e evolução da infraestrutura de pagamentos. Podemos destacar três grandes movimentos que marcaram o ano.
Primeiro, a expansão contínua do Pix incluindo novos casos de uso marcou um passo decisivo na evolução dos pagamentos instantâneos. Recursos como Pix Parcelado e Pix Automático ampliaram significativamente o papel do Pix, permitindo que ele competisse mais diretamente com os modelos tradicionais de crédito e faturamento. O Pix hoje já está profundamente incorporado à vida financeira diária dos consumidores e às estratégias de pagamento dos comerciantes.
Em segundo lugar, 2025 viu um forte crescimento nas experiências de pagamento digital. A adoção de carteiras digitais e soluções de pagamento em aplicativos acelerou, impulsionada pela demanda dos consumidores por jornadas rápidas, seguras e sem atritos. A tokenização, o provisionamento automatizado de cartões e a emulação de cartão (HCE) tornaram-se facilitadores centrais dessa mudança, permitindo que os bancos oferecessem experiências digitais mais fluidas, mantendo altos padrões de segurança. Nesse cenário, a IDEMIA Secure Transactions (IST) desempenhou um papel importante na expansão de sua oferta de serviços de digitalização e tokenização de cartões, permitindo a integração eficiente de produtos financeiros nas principais carteiras do mercado.
Em terceiro lugar, o mercado intensificou seu foco em tecnologias e parcerias visando o futuro. Projetos-piloto envolvendo moedas digitais, pagamentos offline e soluções avançadas de segurança ganharam impulso. Por exemplo, a IST e a Elo anunciaram conjuntamente uma solução piloto inovadora de pagamento offline para a moeda digital do Brasil, projetada para dar suporte a transações em dinheiro digital mesmo sem conexão com a internet; um recurso que aumenta o alcance e a inclusão financeira, permitindo pagamentos em qualquer lugar e a qualquer hora.
Ao mesmo tempo, a crescente complexidade dos ecossistemas digitais aumentou a demanda por uma infraestrutura criptográfica robusta, reforçando a importância estratégica de segurança, resiliência e escalabilidade nos sistemas de pagamento. Nesse contexto, a IST lançou seu pacote de segurança cibernética, IDEMIA Sphere, com bibliotecas criptográficas e ferramentas de proteção de dados, bem como um novo e pioneiro módulo de segurança de hardware (HSM) com arquitetura distribuída, projetado para proteger dados confidenciais e chaves criptográficas com alto nível de resiliência. Essas soluções foram desenvolvidas para atender as necessidades de bancos e parceiros, contribuindo para infraestruturas mais seguras e para um ecossistema de pagamentos mais resiliente.
A IDEMIA em 2025/26
Em 2025, num contexto macroeconômico exigindo decisões de investimento mais disciplinadas, as empresas do mercado de Meios Eletrônicos de Pagamento tiveram que focar na execução de suas prioridades estratégicas. Sendo assim, graças aos relacionamentos sólidos que mantemos com os nossos clientes e a uma abordagem comercial seletiva, em 2025 a IDEMIA Secure Transactions (IST) seguiu expandindo sua liderança no mercado, obtendo ótimos resultados. Por exemplo, recentemente anunciamos um de nossos principais sucessos no Brasil com o lançamento de pagamentos sem contato via Apple Pay para usuários da Ticket, o que foi possível graças à nossa plataforma de tokenização.
Um dos desenvolvimentos mais notáveis em 2025 foi a aceleração da hiperpersonalização no mercado de cartões, particularmente nos segmentos premium. Os emissores se concentraram ainda mais no design, na experiência e no valor percebido para se diferenciarem em um cenário competitivo, reforçando o papel estratégico dos cartões premium e metálicos. Neste contexto, lançamos uma nova linha de cartões metálicos, a Elite Metal Art (EMA e EMA Pro), expandindo ainda mais o nosso amplo portfólio. Esse lançamento vai além da inovação em design e materiais: representa uma evolução na forma como os bancos criam valor percebido para seus clientes, desde ofertas básicas até soluções premium voltadas para os diversos segmentos de alta renda.
Olhando para 2026, as perspectivas são bastante promissoras. Espera-se que a demanda por produtos de maior valor agregado e premium cresça, apoiada por consumidores que buscam exclusividade e experiências diferenciadas. Neste cenário, espera-se que os cartões metálicos desempenhem um papel central na estratégia de crescimento da IDEMIA Secure Transactions, especialmente quando integrados a soluções avançadas de personalização e ganhos adicionais de eficiência industrial. Esperamos um crescimento contínuo e consistente, impulsionado pela inovação e eficiência operacional, e um alinhamento cada vez maior às preferências e à evolução dos nossos clientes.
Assimetria Regulatória
Embora o Brasil tenha feito progressos significativos na regulamentação do ecossistema de pagamentos, bancos e fintechs ainda não operam em condições regulatórias e tributárias totalmente equivalentes. Os bancos tradicionais continuam tendo que atender a requisitos mais elevados de capital, governança, conformidade e tributação, enquanto algumas fintechs ainda se beneficiam de estruturas regulatórias mais leves e custos estruturais mais baixos.
Dito isso, os reguladores têm avançado na direção certa. Maiores requisitos de transparência, controles mais rígidos e supervisão aprimorada das instituições de pagamento indicam um esforço claro em direção a uma convergência regulatória. Essa evolução é positiva para a estabilidade e a segurança do sistema, mesmo que o alinhamento total leve tempo.
A abordagem mais equilibrada é a regulamentação baseada em níveis de risco. Instituições com níveis semelhantes de complexidade e relevância sistêmica, independentemente de serem bancos ou fintechs, devem estar sujeitas a requisitos proporcionais. A harmonização contínua pode ajudar a criar uma concorrência mais justa, preservando a inovação que impulsionou até agora grande parte do crescimento do setor.
Cartões para a Alta Renda
O crescimento da oferta de produtos de cartão voltados à alta renda reflete uma mudança mais ampla na forma como os emissores interagem com clientes abastados. Esses cartões não são mais apenas instrumentos de pagamento e sim produtos voltados a experiências que combinam exclusividade, benefícios e diferenciação.
Do ponto de vista econômico, o modelo é sustentável, porque os clientes de alta renda normalmente geram mais valor ao longo do relacionamento comercial. Estes clientes costumam concentrar seus gastos, mantêm relacionamentos mais duradouros e usam seus cartões como a principal ferramenta de pagamento. Estudos independentes, encomendados pela IST para avaliar o impacto dos cartões de metal nesse segmento, indicam que, apesar dos custos mais altos de produção e dos benefícios, os cartões premium geralmente oferecem retornos sólidos por meio de aumento da retenção, aumento da frequência de uso e do engajamento. Os cartões premium, especialmente os cartões metálicos como as linhas Smart Metal Art (SMA), Ultimate Metal Art (UMA) e Elite Metal Art (EMA) da IST, tendem a estimular uma maior frequência de uso. Isso se traduz diretamente em crescimento nos volumes de transações e, consequentemente, na receita de intercâmbio.
Olhando para o futuro, espera-se que essa tendência continue e até se intensifique. Os consumidores valorizam cada vez mais produtos que refletem status, personalização e exclusividade, enquanto os emissores se beneficiam de uma lealdade mais forte e retornos financeiros mensuráveis. Os cartões premium, portanto, continuarão sendo uma alavanca fundamental para a diferenciação e o crescimento no mercado de pagamentos.
Inteligência Artificial
Até agora, a inteligência artificial tem sido usada principalmente para melhorar a eficiência interna, como automação, pontuação de risco e atendimento ao cliente. Embora essas aplicações sejam valiosas, o potencial da IA nos pagamentos vai muito além.
Um exemplo claro é a personalização em tempo real das experiências de pagamento. Ao combinar histórico de gastos, dados comportamentais e sinais contextuais, a IA pode oferecer opções de pagamento, ofertas ou benefícios personalizados que aumentam a relevância e a satisfação do cliente. Quando bem implementada, essa personalização tende a aumentar a conveniência percebida pelos consumidores e fortalecer a fidelidade, especialmente em produtos de pagamento premium, cuja relevância tem crescido em todo o setor. Apesar de seu impacto potencial, essa aplicação de IA em meios de pagamento ainda está em estado embrionário.
Outra área importante é a prevenção avançada de fraudes. Embora o aprendizado de máquina já detecte padrões conhecidos de fraude, ameaças emergentes, incluindo novos comportamentos de ataque e fraudes impulsionadas por IA, exigem modelos mais adaptáveis e preditivos. À medida que as fraudes se tornam mais sofisticadas, a IA desempenhará um papel crítico na antecipação de riscos, em vez de apenas reagir a eles.
Cartões de Benefícios
As recentes mudanças regulatórias introduzidas pelo Decreto nº 12.712/2025 representam um passo importante para maior clareza e transparência no mercado de benefícios e vales-refeição. Embora exijam ajustes operacionais e de preços em todo o setor, elas também promovem um ambiente mais transparente e competitivo. Nesse contexto, elementos como limites de taxas e maior interoperabilidade incentivam a evolução dos modelos existentes, ao mesmo tempo em que abrem oportunidades adicionais para o desenvolvimento do mercado.
Para os adquirentes e provedores de pagamentos, maior abertura e interoperabilidade tendem a aumentar a dinâmica competitiva e a colaboração em todo o ecossistema. Embora alguns modelos de negócio tenham que ser revistos, um quadro regulatório mais claro apoia a inovação, a eficiência operacional e o crescimento sustentável para diferentes tipos de participantes.
Para as empresas contratantes e os usuários finais, os impactos são amplamente positivos. Maior transparência, custos mais previsíveis, ciclos de liquidação mais rápidos e aceitação mais ampla contribuem para melhorar a eficiência e a experiência do usuário. No geral, a nova estrutura reforça a concorrência e a escolha do consumidor, ao mesmo tempo em que promove a inovação e a estabilidade de longo prazo em todo o ecossistema de benefícios.
Open Finance
O Open Finance tem assumido um papel cada vez mais estratégico para as instituições financeiras. Ele tem um forte potencial para aprofundar o engajamento do cliente e estabelecer a primazia, permitindo experiências mais relevantes e baseadas em dados. Ao permitir que os clientes compartilhem dados financeiros com segurança, como saldos, histórico de transações, produtos contratados e padrões de uso, ele cria um ambiente mais rico para que as instituições financeiras compreendam o contexto financeiro de cada pessoa e projetem soluções que melhor atendam às suas necessidades reais.
Apesar desse potencial, em termos de maturidade o Open Finance ainda está em sua “adolescência”. Numa escala de 0 a 10, eu diria que o uso atual do sistema provavelmente ficaria entre 4 e 5. A maioria das instituições ainda se concentra em casos de uso básicos, enquanto modelos de personalização e previsão mais avançados permanecem limitados.
Ao mesmo tempo, vemos sinais claros de aceleração no processo de adesão ao Open Finance no país. O número de consentimentos ativos para compartilhamento de dados atingiu dezenas de milhões. O crescimento nas chamadas de API indica que a infraestrutura técnica já está madura o suficiente e o uso básico do sistema já está bem estabelecido. Nos próximos dois a quatro anos, espera-se uma adoção mais ampla e aplicações mais sofisticadas. À medida que evolui, o sistema apoiará cada vez mais experiências integradas e centradas no cliente e tornar-se-á, sem dúvida, um fator-chave de engajamento e fidelização.