Katia Fauth
Superintendente executiva da Unidade de Cartões e Banricompras
Fatos Relevantes de 2025
Não é possível falar do mercado de meios de pagamento sem mencionar o Pix. Em 2025, o Pix completou cinco anos de existência e se consolidou definitivamente como um dos principais meios de pagamento utilizados pelos brasileiros, expandindo-se também no segmento de pagamentos para empresas.
Além dessa ampliação, o ano foi marcado por uma maior atenção aos mecanismos de regulação. Novas regulamentações estabeleceram parâmetros mais rígidos que disciplinam tanto a constituição e o funcionamento das instituições de pagamento quanto os controles necessários para a prestação de serviços por instituições autorizadas pelo Banco Central.
No setor de cartões de crédito, 2025 foi um ano de crescimento no volume transacionado, porém acompanhado de desafios relevantes, como a implementação de novas normas regulatórias.
Os pagamentos por aproximação (contactless) — tanto no débito quanto no crédito — seguiram em forte expansão, impulsionados pela busca por transações mais rápidas e práticas. O smartphone vem se consolidando como o device preferido dos consumidores, e a tecnologia que transforma celulares em maquininhas (tap on phone) também ganhou espaço como tendência em evolução.
O endividamento das famílias permaneceu como um ponto de atenção que se refletiu no mercado de meios de pagamento, assim como os impactos da Resolução nº 4.966, que trouxe mudanças importantes no crédito.
Em síntese, 2025 foi um ano de crescimento no volume transacionado, mas também de grandes desafios, marcados por novas exigências regulatórias, necessidade de controles mais robustos e atenção constante ao endividamento das famílias.
O Banrisul em 2025/26
O ano de 2025 foi marcado, para o Banrisul, por avanços significativos na área tecnológica, com expressiva ampliação das transações digitais. Com mais de 300 mil contas digitais, o Banco realizou investimentos robustos em inovação e na implementação de novos processos baseados em inteligência artificial, sem, contudo, abrir mão do atendimento presencial, que permanece como um dos seus principais diferenciais competitivos no Rio Grande do Sul.
Esse movimento reforça o compromisso do Banrisul em aliar tradição e inovação, oferecendo uma experiência completa e personalizada aos seus clientes.
Adicionalmente, foram inauguradas agências e escritórios voltados exclusivamente ao atendimento de empresas, segmento considerado estratégico para o Banco. Esses movimentos evidenciam a determinação do Banrisul em evoluir continuamente, mantendo-se próximo de seus clientes e atento às demandas do mercado.
Entre estas iniciativas, destacam-se a abertura e modernização de agências em Porto Alegre, com um novo leiaute moderno e acolhedor, além da disponibilização de caixas eletrônicos que atendem também clientes de outras instituições, por meio da parceria com a rede Banco24Horas.
Para 2026, a expectativa é dar continuidade à expansão das soluções digitais, aprimorar os serviços com recursos de inteligência artificial e fortalecer ainda mais o relacionamento presencial, consolidando a posição do Banco como referência em atendimento e tecnologia no mercado gaúcho.
Assimetria Regulatória
Os bancos estão sujeitos a normas regulatória e tributária mais rígidas e têm a necessidade constante de manter um equilíbrio em inovação e segurança. Além disso, possuem legado que, juntamente com todos os controles, limitam muitas vezes a velocidade de lançamento de produtos e serviços de meios de pagamento e forte investimento em compliance e governança.
A regulação mais flexível permitiu às fintechs focar em UX e inovação com mais liberdade, porém exigências maiores com novas normas, elas precisam investir em PLD/FT, cibersegurança e auditoria, aproximando-se das exigências bancárias.
Isonomia regulatória para serviços e produtos iguais ou equivalentes com regras iguais, capital exigido proporcional ao risco e atualização constante das regulações de forma a acompanhar inovação sem desigualdade, tendem a garantir uma concorrência mais equilibrada.
Cartões para a Alta Renda
Ao analisarmos o passado, percebemos que movimentos de diferenciação e exclusividade não são novidades no setor de meios de pagamento. Eles se repetem ao longo do tempo, acompanhando mudanças no comportamento do consumidor. A diferença agora está no foco em um público de renda ainda mais elevada, que busca experiências premium e benefícios exclusivos.
Benefícios como acesso a salas VIP, antes restritos a um grupo seleto, tornaram-se mais acessíveis nos últimos anos. Essa popularização elevou as expectativas dos clientes de alta renda, que passaram a exigir mais exclusividade e experiências diferenciadas. Esse cenário impôs às bandeiras e emissores a necessidade de evoluir suas ofertas, criando produtos e serviços que realmente se destaquem.
Essa tendência com certeza veio para ficar e é necessária para manter relevância num mercado cada vez mais competitivo e, para viabilizar novos benefícios e experiências, a centralidade no cliente será o fator determinante. Instituições que conseguirem entender profundamente as expectativas do consumidor, personalizar ofertas e agregar valor real ao relacionamento terão vantagem competitiva.
Inteligência Artificial
As ferramentas de Inteligência Artificial (IA) têm desempenhado um papel crescente na evolução dos meios de pagamento, contribuindo para maior simplicidade operacional e reforço dos mecanismos de segurança.Sistemas de detecção de fraudes evoluem continuamente com o apoio da IA analisando o comportamento e o perfil do consumidor em tempo real e com possibilidade de processamento de grandes volumes de dados transacionais.
No varejo, a IA habilita mecanismos de personalização de ofertas e otimização de jornadas de compra, além de automatizar atividades críticas para pequenas e médias empresas, como previsão de demanda, recomendação de produtos e gestão operacional. Já nas instituições financeiras, a tecnologia tem ampliado a capacidade em avaliações de perfil de consumo, risco e comportamento, aprimorando a concessão de crédito e aumentando a assertividade dos modelos de decisão.
Embora o uso da IA seja mais consolidado nas áreas de prevenção a fraudes e análise de crédito, o potencial de aplicação no ecossistema de pagamentos é significativamente mais amplo.
O papel estratégico da Inteligência Artificial no setor está na integração de capacidades tecnológicas avançadas com elementos humanos, criando jornadas de pagamento mais personalizadas, eficientes e seguras.
A adoção de assistentes capazes de resolver questões complexas – como disputas e chargebacks -, o uso de agentes autônomos que realizam compras e pagamentos automaticamente e a implementação massiva de pagamentos invisíveis ainda não estão sendo aproveitados em sua plenitude. Há um espaço significativo para evoluir e transformar a jornada de pagamentos, elevando eficiência, segurança e conveniência.
Open Finance
O compartilhamento de dados por meio do Open Finance permite que as instituições financeiras compreendam o comportamento dos clientes em todo o sistema, e não apenas dentro da sua própria base. Isso amplia significativamente a capacidade de análise e possibilita a entrega de produtos e serviços altamente personalizados, alinhados ao perfil de consumo e às necessidades reais de cada cliente. Essa personalização gera experiências de maior valor, impulsiona o engajamento e, consequentemente, fortalece a principalidade.
Com o consentimento dos usuários e o uso responsável das informações compartilhadas, torna-se possível oferecer soluções mais competitivas e sob medida, como limites de crédito mais precisos, investimentos adequados ao apetite de risco (conservador ou arrojado) e cartões de crédito com benefícios compatíveis com o comportamento de gastos de cada cliente.
Para o consumidor, por sua vez, a possibilidade de visualizar toda sua vida financeira — de diferentes instituições — em um único aplicativo traz conveniência, facilita o controle e melhora a tomada de decisão. Esse acesso integrado também aumenta a percepção de valor e gera maior confiança no uso da plataforma.
Apesar disso, ainda estamos longe de explorar plenamente o potencial do Open Finance. Considerando maturidade, adoção e uso efetivo das funcionalidades, estamos provavelmente abaixo da metade da escala, em um nível inferior a 5. Para avançar, é fundamental que o cliente perceba vantagem clara no compartilhamento de seus dados, sem receios. Trata-se de um movimento conjunto: à medida que mais consumidores compartilham informações, mais produtos customizados podem ser ofertados — e esse ciclo tende a se tornar cada vez mais positivo.
A expectativa é que essa maturidade avance de forma contínua, ganhando maior tração nos próximos anos, sendo que o uso massivo e plenamente integrado do Open Finance pelo mercado e pelos consumidores ainda deve levar de três a cinco anos para se concretizar.