Fernando Bacchin
Diretor de Produtos Transacionais
Fatos Relevantes de 2025
O ano de 2025 consolidou transformações profundas no setor de pagamentos, elevando a eficiência operacional e redesenhando a experiência do consumidor. Destaco os três pilares que definiram o ano:
- Pix
O Pix atingiu sua maturidade total como infraestrutura crítica do país. Em 2025, o sistema movimentou R$ 35,3 trilhões — um salto impressionante de 33,7% frente a 2024, de acordo com o BC. O grande marco, porém, foi a mudança no perfil das transações: pela primeira vez, o uso comercial (P2B) superou as transferências entre pessoas (P2P), respondendo por 44% do volume total. Esse movimento foi impulsionado pelo lançamento do Pix Automático e pela popularização do Pix por aproximação, que levaram o método para o centro do varejo físico e recorrente. - Abertura do Mercado de Benefícios (Decreto 12.712/25)
Um divisor de águas regulatório foi a implementação do Decreto 12.712/25, que quebrou o oligopólio histórico no setor de benefícios (vales-refeição e alimentação). Ao permitir que qualquer credenciadora opere esses benefícios, o mercado viu uma redução de 20% nos custos para as empresas e uma ampliação de 300% na rede de aceitação. Embora tenha gerado pressão nas margens dos players tradicionais, a medida democratizou o setor e trouxe uma eficiência inédita para o RH das empresas e para o trabalhador. - Contas Globais e Internacionalização de Patrimônio
A democratização do acesso a moedas estrangeiras transformou a conta global em um item essencial no portfólio dos brasileiros. Em 2025, a adesão nas classes A e B saltou de 12% para 31%, impulsionada pela busca por diversificação e economia real. Mais do que apenas um produto para viagens, as contas globais se consolidaram como ferramentas de gestão financeira, oferecendo spreads reduzidos, segurança em tempo real e benefícios como cashback, eliminando as surpresas das faturas de cartões de crédito internacionais convencionais.
O Inter em 2025/26
2025 foi o melhor ano da nossa história. Comemoramos 10 anos do lançamento da primeira conta digital do país, nosso ecossistema vem entregando crescimento sustentável, gerando valor para nossos clientes e seguindo em uma trajetória disciplinada de rentabilidade.
Um dos destaques do 3T25 foi o crescimento da nossa carteira de crédito de 30% em relação ao mesmo período no ano anterior, três vezes o ritmo do mercado, impulsionada pela inovação e experiência digital dos produtos. Também observamos o expressivo aumento do número de adesão ao nosso programa de pontos, o Loop, e números recordes de clientes utilizando nossos produtos de crédito.
Para os meios de pagamentos digitais, tivemos um ano expressivo de crescimento que representou uma transformação estrutural para todo o ecossistema. O setor demonstrou maturidade ao combinar crescimento acelerado com rentabilidade sustentável, apoiado por inovações tecnológicas e novos produtos.
O Pix consolidou-se definitivamente como infraestrutura crítica da economia brasileira. De acordo com o Banco Central (BC), o Pix movimentou R$ 35,3 trilhões em 2025, quase 34% a mais em comparação com o ano passado. No Inter, o Pix se manteve como o principal meio de pagamento, reforçando seu papel como um dos pilares fundamentais em nosso ecossistema de pagamentos.
Destacamos também a implementação massiva de inteligência artificial para atendimento ao cliente, prevenção de fraudes e redução de chargebacks, resultando em ganhos operacionais significativos.
O crescimento das contas globais foi outro marco, permitindo que clientes invistam e transacionem no exterior com economia real de taxas e spread cambial.
Os adquirentes, por sua vez, encontraram novos caminhos através de soluções integradas para melhorar margens, enquanto o Open Finance finalmente começou a mostrar casos de uso práticos, especialmente em crédito. A consolidação de super-apps financeiros e a democratização do acesso via embedded finance completaram um cenário de transformação profunda.
Para 2026, seguimos confiantes no nosso posicionamento estratégico e um mercado em forte movimento. Acreditamos que os principais produtos vão continuar crescendo (Pix, cartões de crédito e abertura de contas), mostrando que os fundamentos do setor permanecem sólidos. Do ponto de vista de tendências, haverá um aprofundamento no uso de inteligência artificial, fluxos conversacionais e ofertas altamente personalizadas, permitindo entregar mais valor com mais velocidade, exatamente onde e quando o cliente precisa. No intervalo de um ano, deveremos observar avanços significativos, especialmente no uso dessas tecnologias de forma cada vez mais integrada.
Para o Inter, a combinação de portfólio completo e tecnologia é um diferencial importante. Ter produtos disponíveis em diferentes categorias permite fazer a oferta certa no momento certo, com soluções mais sustentáveis e que contribuem para reduzir inadimplência. Esse processo depende fortemente do uso de IA para interpretar dados, identificar o contexto e o momento do cliente e apoiar sua jornada rumo a uma vida financeira mais inteligente.
Cartões para a Alta Renda
O mercado de cartões de alta renda vive uma expansão contínua no Brasil e no mundo, impulsionado pela busca dos bancos por fidelizar clientes com maior poder de gasto. Cartões como Black, Infinite e modelos metálicos oferecem benefícios robustos que parecem custosos, mas são sustentados por uma estratégia focada no valor de longo prazo.
O objetivo central não é a anuidade, mas atrair investimentos, seguros e operações de câmbio para dentro da instituição. A concorrência aumentou especialmente no Brasil após bancos digitais facilitarem o acesso a cartões premium, levando os bancos tradicionais a reposicionarem suas ofertas. Globalmente, cresce a ênfase em experiências personalizadas e serviços exclusivos.
Nos próximos anos, o setor deve se sofisticar ainda mais, com produtos destinados à altíssima renda e diferenciais que vão além de milhas ou cashback. A vantagem competitiva estará no acesso a experiências únicas e na personalização profunda viabilizada por inteligência artificial, que permitirá oferecer benefícios sob medida no momento do uso. Esse movimento reforça a principalidade e consolida o cartão como porta de entrada para uma relação bancária mais ampla e rentável.
Inteligência Artificial
A IA já é o “cérebro” por trás da detecção de fraudes e automação de back-office, mas percebemos que sua aplicação externa (focada no cliente e na jornada de compra) ainda é subutilizada.
Em relação à jornada do consumidor nos mercados de adquirência e emissão de cartões, a IA pode ser um grande agente. O marketing, antes baseado em perfis amplos, evolui para experiências altamente personalizadas, graças a modelos capazes de interpretar o histórico de compras, o contexto e até sinais de comportamento digital para oferecer crédito ou parcelamentos no momento exato do check-out. Em vez de campanhas genéricas enviadas depois da compra, a IA passa a gerar ofertas instantâneas e alinhadas à capacidade real de pagamento do cliente, como sugerir o financiamento de uma viagem no próprio ato da transação.
Essa evolução abre espaço para os pagamentos invisíveis realizados por agentes de IA. A expectativa é que, até 2026, sistemas autônomos não apenas detectem fraudes, mas também concluam compras completas em nome do usuário, analisando necessidades, preços e benefícios e executando a melhor opção de forma totalmente automatizada.
A IA também amplia as capacidades de análise para microempreendedores. Além do scoring tradicional, torna-se possível usar dados não estruturados, como avaliações online, menções em redes sociais e fluxos de apps de venda, para criar modelos dinâmicos de antecipação de recebíveis. Assim, um restaurante com aumento repentino de avaliações positivas pode ter crédito liberado imediatamente, antecipando um fim de semana de maior faturamento.
No campo do crédito, há espaço para desenvolver limites totalmente dinâmicos, que se ajustam conforme o comportamento imediato do consumidor ou conforme o cenário econômico. Com o Open Finance, isso pode atingir ainda maior precisão, permitindo até taxas de câmbio personalizadas no momento de uma compra internacional, de acordo com o saldo consolidado do cliente.
A IA generativa também transforma a cobrança e recuperação de crédito, historicamente massificadas. Ao adaptar linguagem, tom e condições ao perfil emocional e financeiro de cada pessoa, as negociações tornam-se mais empáticas e eficazes, especialmente em canais como WhatsApp, elevando a recuperação sem aumentar custos.
O próximo grande diferencial competitivo será integrar IA generativa e preditiva na experiência do consumidor, tornando o pagamento cada vez mais invisível, inteligente e proativo.
Cartões de Benefícios
O Decreto 12.712/2025, publicado em novembro de 2025, provoca mudanças significativas no setor de benefícios.
Para as empresas emissoras e operadoras, há uma interferência direta no modelo comercial, já que o deságio é definitivamente proibido e passa a existir um limite máximo de 3,6% para a taxa cobrada dos estabelecimentos (MDR). Com isso, essas empresas precisam abandonar o antigo modelo baseado em descontos e migrar para uma lógica centrada em excelência de serviço e tecnologia, impulsionada pela interoperabilidade, que determina que qualquer cartão de benefícios seja aceito em qualquer maquininha.
As credenciadoras também passam por transformação. A nova regra determina que todos os terminais aceitem todas as bandeiras de benefícios, eliminando a limitação de rede que favorecia grandes grupos verticalizados. Essa mudança amplia o mercado e permite que credenciadoras menores disputem a captura dessas transações em condições mais equilibradas.
Para os clientes corporativos que contratam os benefícios, há impacto financeiro relevante, já que eles perdem o abatimento oferecido pelo deságio, o que pode elevar os custos operacionais dos departamentos de recursos humanos.
Entre os usuários finais, ou seja, os trabalhadores, o efeito é majoritariamente positivo. A interoperabilidade amplia de forma significativa a rede de estabelecimentos disponíveis, evitando restrições a restaurantes que aceitem apenas uma bandeira específica. Além disso, a eliminação de taxas excessivas e do deságio reduz a chance de repasse de custos pelos estabelecimentos, o que evita aumento de preços para o consumidor.
No conjunto, o decreto funciona como um mecanismo regulatório que corrige distorções competitivas e, ao mesmo tempo, utiliza a modernização tecnológica para garantir que o programa cumpra sua função social de maneira mais justa e eficiente.
Open Finance
O Brasil se tornou uma referência global em Open Finance, superando em velocidade e abrangência modelos da Europa e Estados Unidos. No contexto do mercado de cartões de crédito e pagamentos, o Open Finance transforma dados em inteligência para engajar o consumidor.
Ao se consolidar como um impulsionador de principalidade e engajamento no mercado de cartões, o Open Finance permite que os bancos ofereçam experiências hiperpersonalizadas com base no comportamento real dos clientes. O acesso a dados de outras instituições possibilita limites melhores, taxas mais competitivas e produtos mais aderentes ao perfil de gastos. Os aplicativos também evoluem para se tornar hubs financeiros completos, reunindo contas e cartões em um só lugar, o que aumenta o engajamento. A análise de risco se torna mais precisa e veloz, facilitando a oferta de crédito com maior assertividade, enquanto a iniciação de pagamentos via Pix reduz custos e aumenta a conveniência.
Apesar do potencial, ainda há desafios ligados à percepção do consumidor, que muitas vezes não associa o Open Finance a benefícios diretos. A falta de tangibilidade e o receio de segurança dificultam a adesão, exigindo comunicação clara e educativa por parte das instituições. A expectativa é que 2026 marque a maturidade operacional do ecossistema, e 2027 inaugure uma fase mais avançada, com serviços automatizados e inteligentes. O uso pleno tende a ocorrer de forma contínua, à medida que o compartilhamento de dados se torna natural e a indústria traduz a tecnologia em vantagens concretas, como mais limite, menores taxas e maior segurança.