Daniel Oliveira
Vice-presidente de Pagamentos
Fatos Relevantes de 2025
Em 2025, o mercado de Meios Eletrônicos de Pagamento foi fortemente impactado pela intensificação de ataques hackers e incidentes de segurança envolvendo diferentes elos do ecossistema financeiro. Segundo levantamento da ISH Tecnologia, o setor foi o principal alvo de cibercriminosos no Brasil, concentrando 20,18% de todos os ataques registrados no primeiro trimestre. Entre janeiro e março, foram mais de 132 mil tentativas de invasão, o que equivale a mais de duas por minuto. Esse aumento da frequência e da sofisticação das ofensivas, direcionadas tanto a instituições financeiras quanto a provedores de tecnologia e infraestrutura, colocou a cibersegurança no centro da agenda estratégica do setor. Como resposta, houve uma aceleração relevante de investimentos em proteção de ambientes críticos, monitoramento contínuo, autenticação forte e uso de inteligência artificial para detecção e prevenção de fraudes, além de maior integração entre áreas de tecnologia, risco e negócios. A segurança deixou de ser um tema reativo e passou a ser tratada como um fator essencial de resiliência e continuidade operacional.
Outro destaque do ano foi o avanço do arcabouço regulatório para modelos de Banking as a Service, impulsionado justamente pela necessidade de maior governança em um ambiente cada vez mais distribuído e interconectado. Em novembro, o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional publicaram a regulamentação oficial do BaaS, definindo responsabilidades entre instituições licenciadas e parceiros tecnológicos, além de regras de gerenciamento de riscos, controles internos e requisitos de segurança. Essa regulação cria bases mais sólidas jurídicas. O movimento reorganiza um setor que até então funcionava de forma difusa.
Também vimos o Pix completar seu quinto ano de existência. Ele, que já vinha se consolidando como um dos principais meios de pagamento no Brasil, alcançou a marca de R$ 30 trilhões transacionados no ano, segundo o Banco Central. Desde seu lançamento em 2020, já foram transferidos o equivalente a 6,4 vezes o PIB brasileiro. Novos recursos, como o Pix Automático, ampliaram casos de uso e reforçaram sua centralidade na economia digital. A robustez e a escala da infraestrutura brasileira passaram a ser observadas por outros países da região como benchmark em pagamentos instantâneos, interoperabilidade e inclusão financeira, posicionando o Brasil como um dos principais polos de inovação em pagamentos na América Latina. Segurança do Pix também virou um tema central para todas as instituições conectadas ao Banco Central.
Com esses marcos, pode-se afirmar que 2025 representou o ano de amadurecimento estrutural para o mercado de pagamentos. A segurança consolidou-se como pilar estratégico, a regulação surgiu como catalisadora de confiança, e a inovação reafirmou-se como motor de competitividade e inclusão. Esse tripé posiciona o mercado em um novo patamar, no qual o futuro dos pagamentos será definido pela capacidade de equilibrar essas três dimensões de forma sustentável e integrada.
A Evertec Brasil em 2025/26
Foi um ano de consolidação, crescimento consistente e evolução estratégica para a Evertec. No terceiro trimestre, reportamos um crescimento de 6% no EBITDA e 8% da receita em relação ao 3T24. Na América Latina, o avanço de 19%, impulsionado principalmente pela operação brasileira, reforça o Brasil como um dos principais pilares estratégicos do grupo e um mercado central para nossa expansão regional.
Mantivemos um ritmo robusto e disciplinado de investimentos, com mais de R$ 30 milhões destinados à pesquisa e desenvolvimento no Brasil para acelerar a aplicação de inteligência artificial, além de aproximadamente US$ 90 milhões em capex [projeção de investimentos] voltados à modernização de plataformas, eficiência operacional e evolução contínua das soluções oferecidas aos clientes.
O ano também foi marcado por movimentos estruturantes de crescimento inorgânico. Em outubro, concluímos a aquisição de 75% da Tecnobank, empresa especializada em soluções de registro digital de contratos de financiamento de veículos e serviços associados ao crédito automotivo. A operação amplia nossa atuação em um segmento adjacente e altamente estratégico ao nosso core de tecnologia financeira, adicionando capacidades relevantes em infraestrutura, eficiência e compliance ao ecossistema da Evertec. Trata-se da terceira aquisição da nossa empresa no Brasil que, somada às anteriores, representa um investimento superior a R$ 3,4 bilhões em M&A no país.
Outro marco importante foi a conclusão da unificação da Sinqia sob a marca Evertec Brasil. Mais do que um rebranding, foi uma estratégia de integração global que nos permite acelerar sinergias, integrar competências e simplificar a experiência dos clientes. Operar com uma marca única reforça nosso posicionamento como uma das plataformas de tecnologia financeira mais completas da América Latina e Caribe, apoiando a transformação do sistema financeiro em um ambiente cada vez mais digital e dinâmico.
Para 2026, seguimos focados em aprofundar nossa liderança em meios de pagamento eletrônicos, ampliar o uso estratégico de inteligência artificial em produtos e operações, capturar as sinergias das integrações recentes e continuar entregando valor sustentável aos nossos clientes, com disciplina financeira e visão de longo prazo.
Assimetria Regulatória
Embora tenha havido avanços importantes nos últimos anos, instituições bancárias tradicionais ainda operam sob um arcabouço regulatório e fiscal historicamente mais exigente, com elevados requisitos de capital, compliance, governança e recolhimento de tributos. Já fintechs e novos entrantes, especialmente aqueles estruturados como instituições de pagamento ou que operam por meio de parcerias, atuam em um ambiente regulatório mais flexível, o que favoreceu a inovação e o surgimento de novos modelos de negócio. Em 2025, por exemplo, o Banco Central registrava mais de 1.200 instituições de pagamento e fintechs autorizadas, frente a pouco mais de 160 bancos, evidenciando a diversidade do ecossistema.
Esse desequilíbrio parece estar sendo gradualmente endereçado pelo regulador. O Banco Central tem avançado em uma abordagem baseada em atividade e risco, buscando alinhar as exigências regulatórias ao impacto sistêmico e ao perfil de atuação de cada instituição, independentemente de seu porte ou origem. A regulamentação de modelos como Banking as a Service (Resolução Conjunta nº 16/2025) e a ampliação das responsabilidades sobre parceiros e terceiros caminham nessa direção, ao reduzir lacunas e tornar mais claras as obrigações de cada participante.
O desafio parece ser encontrar o ponto de equilíbrio entre inovação e concorrência justa. Serviços equivalentes caminham para estarem sujeitos a requisitos similares de segurança, gestão de riscos, proteção ao consumidor e integridade operacional, preservando, ao mesmo tempo, um ambiente que continue estimulando a inovação e que seja seguro. Um ambiente regulatório previsível, baseado em risco e alinhado à realidade digital do setor é fundamental para suportar o crescimento saudável e sustentável do ecossistema financeiro brasileiro no longo prazo. O principal ajuste não está em eliminar diferenças, mas em assegurar proporcionalidade e isonomia.
Cartões para a Alta Renda
O crescimento da oferta de cartões voltados ao público de alta renda nos últimos anos está diretamente ligado à maior sofisticação dos modelos de monetização e ao uso intensivo de dados para segmentação.
Paralelamente, o próprio amadurecimento da infraestrutura de pagamentos e dos meios digitais ampliou a eficiência operacional do sistema como um todo. Essa escala e eficiência são fundamentais não apenas para sustentar ofertas mais sofisticadas, mas também para viabilizar soluções simples, acessíveis e de baixo custo voltadas a camadas mais amplas da população.
Do ponto de vista de tendência, o movimento de cartões premium não deve desacelerar. O foco passa a ser menos volume e mais relevância, com propostas de valor mais personalizadas e integradas ao comportamento do cliente. A hiperpersonalização baseada em dados e experiências exclusivas será o diferencial competitivo, enquanto a sustentabilidade desse modelo depende de um ecossistema equilibrado, no qual inovação, eficiência e inclusão avancem de forma complementar.
Inteligência Artificial
A inteligência artificial já se consolidou como um importante vetor de eficiência nos Meios Eletrônicos de Pagamento, especialmente em automação, atendimento, desenvolvimento de software e prevenção a fraudes. Ainda assim, grande parte das aplicações hoje é incremental, focada em ganhos operacionais, quando há espaço relevante para usos mais estruturais, ligados a crescimento, personalização e tomada de decisão em tempo real.
O cenário brasileiro confirma essa maturação. Segundo a Pesquisa Febraban 2025, 80% dos bancos já utilizam IA e IA generativa, com ganhos médios de 11,4% em eficiência.
Na Evertec, a IA é tratada como um pilar estratégico, dentro de uma visão AI First, que conecta eficiência, inovação e crescimento. A empresa destinou mais de R$ 30 milhões em pesquisa e desenvolvimento para acelerar o uso de inteligência artificial em suas operações e soluções, combinando tecnologia, governança e capacitação de pessoas. Mais de mil colaboradores já passaram por programas estruturados de treinamento, e centenas de desenvolvedores utilizam ferramentas de IA no dia a dia, com ganhos claros de produtividade.
Uma das fronteiras mais promissoras está nos agentes de IA aplicados diretamente aos pagamentos. Esses agentes devem permitir maior autonomia na execução de transações, otimização de rotas e gestão de recorrências. Iniciativas globais, como o Agent Pay da Mastercard, sinalizam que esse modelo deve ganhar escala nos próximos anos, abrindo caminho para uma nova fase dos pagamentos digitais.
Cartões de Benefícios
O Decreto nº 12.712/2025 deve ser entendido menos como uma interferência direta e mais como uma tentativa de modernização do mercado de benefícios, ao estabelecer interoperabilidade, limites de tarifas e maior transparência.
Para as empresas de benefícios, o novo arcabouço regulatório eleva exigências de governança e compliance, reduzindo práticas comerciais pouco claras ou baseadas em barreiras artificiais de aceitação. Players com escala, capacidade tecnológica e maturidade regulatória tendem a se beneficiar de um ambiente mais previsível, ainda que enfrentem pressão sobre margens no curto prazo, enquanto modelos menos robustos perdem competitividade.
Para as credenciadoras, o decreto abre espaço para maior racionalidade operacional e ampliação da aceitação, com potencial de aumento de volume transacional e integração ao ecossistema de meios de pagamento. Esse ganho, porém, vem acompanhado da necessidade de investimentos em adaptação tecnológica e monitoramento contínuo para garantir a correta categorização e uso dos benefícios.
Sob a ótica das empresas contratantes, há ganhos relevantes em previsibilidade e governança, com redução de riscos trabalhistas e jurídicos e reforço do propósito original do benefício, ainda que algumas flexibilidades comerciais sejam reduzidas.
Já para os usuários finais, o impacto é positivo no médio prazo: maior liberdade de escolha, transparência e experiência ampliada, mesmo que ajustes iniciais na rede de aceitação sejam necessários.
Open Finance
O Open Finance já se consolidou como uma das agendas estruturantes do sistema financeiro brasileiro. Ao permitir o compartilhamento seguro e padronizado de dados e serviços, ele cria as bases para um novo patamar de competição, no qual a diferenciação deixa de estar apenas no produto e passa a estar na capacidade de transformar informação em relacionamento. Para os players, isso se traduz em maior possibilidade de personalização, aumento de principalidade e fortalecimento do engajamento, na medida em que o cliente passa a perceber valor em soluções alinhadas ao seu comportamento real de consumo, crédito e investimentos.
Do ponto de vista de adoção, o avanço é relevante, mas ainda aquém do potencial. Em 2025, o Open Finance Brasil registrou mais de 37 milhões de consentimentos ativos, sendo 99% de pessoas físicas. Ainda assim, a penetração segue limitada: apenas 28% da população bancarizada havia aderido até agosto de 2025 e entre empresas (PJs) esse índice não passou de 3%. Os indicadores de maturidade refletem que houve leve evolução no uso por consumidores, mas estagnação — e até retração — no ecossistema empresarial, evidenciando dificuldades de escala, monetização e construção de propostas de valor claras.
No campo regulatório, o Banco Central cumpriu um papel decisivo ao fortalecer a infraestrutura e reduzir ambiguidades. A obrigatoriedade de adesão para grandes instituições e a atualização contínua dos padrões técnicos consolidaram o Open Finance como política de Estado, não como iniciativa voluntária. No entanto, regulação e infraestrutura, por si só, não garantem adoção nem relevância. O desafio agora é menos normativo e mais estratégico.
Persistem gargalos importantes. As taxas de sucesso das transações ainda estão muito abaixo do padrão esperado para um sistema financeiro de missão crítica, o que afeta diretamente a confiança do usuário e a disposição das instituições em construir jornadas mais complexas. Além disso, em muitos casos, o Open Finance ainda é tratado internamente como um item de compliance, e não como uma alavanca de negócio. Isso limita a criação de experiências diferenciadas e reforça a percepção, por parte do consumidor, de que o benefício é difuso ou pouco tangível.
Nesse contexto, é razoável afirmar que o Brasil se encontra em um estágio intermediário de maturidade. Avançou de forma consistente em governança e arquitetura, mas ainda está distante do uso pleno do potencial do Open Finance como motor de crescimento e inovação. A consolidação deve ocorrer ao longo dos próximos cinco a sete anos, à medida que a confiabilidade técnica se aproxime de padrões internacionais, os casos de uso se tornem mais claros e os dados passem a ser efetivamente convertidos em experiências personalizadas, simples e relevantes.