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Acesso a Clientes

É urgente definir padrões para identificação de agentes de pagamento e estabelecer salvaguardas contra erros no processo de compra via IA.

Celina Koshimizu e Pablo Morales

Consultora de Negócios e Diretor de Parcerias e Alianças

Fatos Relevantes de 2025

Os três grandes destaques do mercado de Meios Eletrônicos de Pagamento em 2025 foram:

1) Comércio e Pagamento Agênticos: Em 2025, começamos a ver a concretização do uso da IA agêntica no comércio e nos meios de pagamento eletrônico, a partir do desenvolvimento de soluções e lançamento de protocolos pelos maiores players do mercado global, entre os quais as bandeiras Mastercard e Visa, os facilitadores Stripe e PayPal, e o gigante do comércio eletrônico Amazon.com, só para citar alguns nomes. Do ponto de vista do comércio, a preocupação com a transição de uma IA que sugere produtos para uma IA que decide e efetua a compra em nome do consumidor é a perda do relacionamento direto e do domínio dos dados de comportamento e consumo do cliente. Por outro lado, da perspectiva de meios de pagamento, ademais de uma certa miopia em relação aos hábitos de consumo e preferências do cliente, emergem discussões sobre autenticidade do agente de pagamento e responsabilidade no caso de eventuais contestações de compras realizadas. É urgente definir padrões para identificação de agentes de pagamento e estabelecer salvaguardas contra erros no processo de compra via IA. A fraude de primeira parte já é complexa; adicionar agentes de pagamento e comércio agêntico torna o desafio ainda maior.

2) Amadurecimento do Pix: Se para o público geral, o pagamento instantâneo disponível 24×7 é prático e atrativo, para criminosos, tornou-se uma via para dispersão imediata de valores desviados através de golpes e ataques cibernéticos. Por esse motivo, a publicação pelo Banco Central de diversas resoluções que intensificam as medidas de combate a fraudes com o Pix foi um fato de destaque ao longo de 2025. São normas que tratam desde o saneamento de chaves, com verificação obrigatória de CPFs e CNPJs junto à receita Federal para validar sua regularidade (Resolução BCB nº 457) até o aprimoramento do Mecanismo Especial de Devolução (MED 2.0 – Resolução BCB nº 493), permitindo múltiplos bloqueios e devoluções parciais ao longo da cadeia de recebimento, e não apenas na primeira camada de contas. Vale destacar também a publicação de normas que visam ao aumento da segurança operacional e resiliência do Sistema de Pagamentos Instantâneos, a exemplo da Resolução BCB nº 524, que instituiu maior rigor no gerenciamento e monitoramento das Contas de Pagamentos Instantâneos, que são aquelas mantidas pelas instituições financeiras junto ao Banco Central para liquidação das transações de Pix em tempo real (Contas PI).

Além do aprimoramento dos quesitos de segurança no sistema, há outros aspectos que corroboram com o processo de amadurecimento do Pix. Conforme dados do Banco Central (https://www.bcb.gov.br/estatisticas/spbadendos?ano=2024, consultado em 29/12/2025), embora nos últimos 12 meses o volume de pagamentos através do Pix tenha crescido mais que o de cartões de crédito (37% do Pix contra 15% dos cartões de crédito), o ritmo diminuiu em comparação com os 54% de crescimento do ano anterior. Essa desaceleração ocorre em um momento em que ainda não havia obrigatoriedade da oferta de Pix Automático (estabelecida somente a partir de out/25), nem definição de uma regra padronizada para oferta de Pix Parcelado (definição adiada pelo Banco Central, sem prazo determinado). Vale ressaltar também os impactos de notícias falsas, no início de 2025, acerca de uma possível taxação de valores transacionados no Pix.

São diversos fatores que compõem o processo de amadurecimento desse que já se consolidou como o instrumento mais utilizado no país, com mais de 50% das transações de pagamento realizadas ao longo do ano.

3) Encerramento do piloto do Drex: Em novembro, o Banco Central do Brasil anunciou o encerramento do piloto do Drex, apontando para uma mudança de direção na estratégia de moedas digitais no Brasil. Sob a ótica de meios de pagamento, por um lado, o Pix já traz agilidade e segurança para um consumidor doméstico, com disponibilidade 24×7, de forma que o Drex não seria um recurso especialmente atraente. Por outro lado, pensando em transações transfronteiriças, o uso de moedas digitais, sejam operadas pelo Banco Central ou por empresas privadas, trazem muito mais eficiência do que os processos de câmbio tradicionais. Inclusive, tendo isso em vista, a Visa e a Mastercard têm investido em soluções para pagamentos em stablecoins, posicionando-se como facilitadoras da economia digital tokenizada, desafiando a narrativa de que as criptomoedas seriam uma forma de contornar as redes de cartões.

A FICO em 2025/26

Para a FICO®, o ano de 2025 foi marcado por dois lançamentos que reafirmam a posição de liderança e vanguarda da empresa no desenvolvimento de soluções para tomada de decisão com aplicação de Inteligência Artificial.

Em primeiro lugar, o anúncio do FICO® Focused Foundation Model para Serviços Financeiros, durante nosso evento global, no mês de maio. Trata-se de um modelo fundacional pré-treinado exclusivamente com dados relacionados a serviços financeiros, apresentando-se em dois formatos: um modelo de linguagem natural, o FICO® Focused Language Model for Financial Services (FLM) e um modelo para detecção de padrões de transações, o FICO® Focused Sequence Model for Financial Services (FSM). O fato de ser pré-treinado exclusivamente com fontes selecionadas e com conteúdo limitado à indústria financeira contribui para que a precisão de suas respostas seja alta e para que o risco de alucinação seja mínimo, em comparação com modelos generalistas. Além disso, a FICO® desenvolveu uma forma de classificar o nível de confiabilidade da resposta de um modelo de IA – o Trust Score – de forma que decisões automatizadas sejam tomadas com segurança e alinhamento às políticas de cada empresa cliente. Essas inovações da FICO® permitirão um salto de qualidade na automatização de processos que demandem interação com linguagem natural, bem como um incremento substancial na capacidade de detecção de fraudes transacionais, sempre de forma transparente e auditável, seguindo os princípios da IA Responsável.

Além disso, em outubro de 2025, lançamos a FICO® Enterpise Fraud Solution – EFS, que permitirá que as instituições financeiras monitorem de forma integrada transações de todo seu portfólio de produtos, em todos seus canais de contato com o consumidor, ao longo de todo o ciclo de vida. Com isso, as instituições conseguirão identificar padrões de comportamento em áreas aparentemente isoladas, podendo se antecipar à ocorrência da fraude, e efetivamente protegendo o consumidor, antes que uma ameaça se concretize. Assim, a EFS em conjunto com o FICO® FFM elevará a prevenção de fraudes a um novo patamar.

Assimetria Regulatória

Bancos e fintechs têm atuação e alcance distintos, o que é bastante claro quando comparamos os públicos com os quais atuam e seus portfólios de produtos. Dessa forma, é bastante complexo definir equivalência de condições regulatórias e tributárias, comparando-se o todo. Ainda assim, vemos movimentos recentes do governo e do Banco Central no sentido de buscar essa equivalência, com aumento das exigências regulatórias e elevação gradual de alíquotas de CSLL, por exemplo.

Se por um lado, alguma assimetria se justifica para fomentar a inovação, por outro, pode gerar distorções competitivas e risco ao sistema financeiro, à medida em que as fintechs ganham escala.

O desafio é preservar o dinamismo do setor enquanto se protegem os consumidores e o sistema financeiro.

Cartões para a Alta Renda

A viabilização desses produtos premium ocorre através de dois pilares principais: taxa de intercâmbio elevada e alocação massiva de verbas de marketing como custo de aquisição de cliente. As instituições apostam no alto ticket médio e lifetime value (LTV) deste público para justificar os super benefícios que servem para atrair clientes, mas, que consomem uma parcela relevante do valor faturado.

Entretanto, o modelo atual apresenta sinais de insustentabilidade: o mercado brasileiro de alta renda é limitado, gerando uma guerra predatória por market share. Olhando para a base total de cartões emitidos (não apenas produtos premium), o percentual de cartões inativos cresce consistentemente, tendo se aproximado de 60%, segundo o Relatório de Monitoramento do Mercado de MEP do 3º trimestre de 2025. Assumindo que esse comportamento ocorre em todos os segmentos, podemos visualizar clientes acumulando múltiplos produtos premium, usufruindo dos benefícios que pontualmente lhe interessam, mas, concentrando o uso em um ou dois cartões principais.

Dessa forma, a tendência é que as instituições comecem a revisar suas estratégias ao observar o LTV real versus projetado. Produtos verdadeiramente diferenciados sobreviverão, mas, a era do super benefício generalizado deve acabar, com instituições priorizando rentabilidade sobre crescimento a qualquer custo.

Inteligência Artificial

Seguem dois exemplos:

1) Segurança e prevenção de fraudes: Além de atuar na detecção de transações suspeitas, a IA pode antecipar padrões de fraude ainda não materializados. Com a tecnologia disponível atualmente, é possível olhar para um contexto mais amplo, identificando vulnerabilidades comportamentais através da integração de dados de múltiplos pontos de contato. O FICO® Focused Sequence Model demonstra resultados superiores, com maior taxa de detecção e precisão aprimorada, contribuindo fortemente para uma melhor experiência do usuário, tanto pelo aumento da proteção quanto pela redução de ocorrência de falsos positivos, em comparação com os modelos vigentes. Adicionalmente, a evolução para IA agêntica transformará o trabalho dos analistas de fraude, automatizando triagem de casos, sugerindo ações contextualizadas e atualizando regras dinamicamente, com base em feedback contínuo, criando um sistema antifraude verdadeiramente adaptativo.

2) Hiperpersonalização de ofertas: A IA pode revolucionar a individualização de produtos financeiros através da análise contínua de dados transacionais, comportamentais e contextuais, criando ofertas únicas por cliente e momento. Tecnologias como a Plataforma FICO® permitem construir perfis dinâmicos atualizados em tempo real, possibilitando ajustes instantâneos de cashback, benefícios baseados em localização/contexto e precificação ajustada ao risco individual. O desafio central não é tecnológico, mas regulatório e ético: algoritmos não viesados, transparência nas decisões, explicabilidade e compliance com normas de proteção ao consumidor. Instituições que dominarem esse equilíbrio entre personalização extrema e IA responsável conquistarão vantagem competitiva sustentável, transformando dados em relacionamentos duradouros, através de ofertas que antecipam necessidades antes mesmo que o cliente as perceba.

Cartões de Benefícios

Sem dúvida, trata-se de uma interferência direta, mas, que chega para forçar uma reestruturação do modelo de negócios das empresas de benefícios.

Para as empresas incumbentes, seu poder de negociação com os grandes clientes e sua capacidade de credenciamento de estabelecimentos eram os pilares centrais para a conquista de mercado e manutenção da rentabilidade. Com as mudanças impostas, essas empresas precisarão se reinventar e oferecer novos diferenciais, tanto para quem contrata quanto para o usuário final dos cartões.

Para as credenciadoras, a interoperabilidade expande o mercado endereçável, permitindo processar transações de múltiplos emissores de vale-refeição/alimentação. Estabelecimentos comerciais beneficiam-se duplamente: maior volume de vendas e potencial redução de taxas pela competição intensificada entre credenciadoras. Cabe ressaltar a responsabilidade das credenciadoras na certificação do ramo de atividade dos estabelecimentos credenciados e no monitoramento transacional para coibir desvios e irregularidades.

Para as empresas contratantes, o impacto é positivo: ganham poder de negociação e flexibilidade para escolher fornecedores, e passam a oferecer a seus funcionários um benefício mais vantajoso, considerando a ampliação da rede credenciada de forma transparente.

E, finalmente, os usuários finais são os grandes vencedores, ao obter liberdade de escolha sobre onde gastar, fim da frustração com estabelecimentos que não aceitam seu cartão, e potencial valorização do benefício pela ampliação de uso.

Open Finance

O Open Finance revoluciona a conquista de principalidade através do conhecimento profundo e contextual do cliente. Com acesso consentido a dados transacionais em outros bancos, as instituições podem criar perfis dinâmicos atualizados em tempo real, possibilitando hiperpersonalização de ofertas. A Plataforma FICO® processa dados transacionais continuamente, permitindo antecipar necessidades, ofertar produtos no momento ideal e criar experiências verdadeiramente individualizadas – transformando dados em relacionamento.

Em termos de uso do potencial do sistema, atualmente, estamos no patamar 4 a 5 de 10. A infraestrutura técnica está operacional, milhões de consentimentos foram dados e casos de uso básicos funcionam bem – principalmente consultas para crédito e agregação de contas. Contudo, ainda não exploramos aplicações mais sofisticadas como pagamentos contextuais, gestão financeira preditiva ou experiências verdadeiramente integradas que gerem valor perceptível ao cliente final.

Poderá haver um avanço significativo em um horizonte de 3 a 5 anos, dependendo menos de tecnologia ou regulação, e mais da emergência de modelos de negócio que incentivem colaboração sobre competição. O mercado precisa de catalisadores: casos de uso transformadores ou pressão competitiva externa que torne a adoção do Open Finance uma vantagem estratégica.

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