Fatos Relevantes de 2025
Quais foram os grandes destaques de 2025 no que se refere ao mercado de Meios Eletrônicos de Pagamento. Cite 3 fatos relevantes que marcaram o ano de 2025.
O ano de 2025 foi mais um ano positivo e de forte crescimento para o mercado de meios eletrônicos de pagamento. Cartão de crédito registrou crescimento expressivo no volume de transações (acima de 12%) e o cartão de débito apresentou estabilidade. Sem dúvida, o Pix cresceu e se consolidou como uma importante alternativa de pagamento, muito além de ser apenas um instrumento de transferência bancária instantânea. O Pix passou a se integrar às jornadas de pagamento e as instituições financeiras encontraram formas de gerar receitas com o Pix, aproveitando-se da expansão geral do mercado de pessoas bancarizadas e da criação de produtos com alguma sinergia, a exemplo do Pix no cartão de crédito. Veja os fatos mais lembrados pelos profissionais que opinaram neste relatório:
- O Pix manteve sua agenda evolutiva em 2025, e o Brasil reforçou seu papel como referência global em pagamentos instantâneos. Entre os principais avanços, destacam-se novos modelos de uso: Pix por Aproximação, que oferece ao varejo uma alternativa de pagamento com menor custo operacional; Pix Automático, voltado a pagamentos recorrentes, como contas e assinaturas, em substituição ao débito automático tradicional; Pix Parcelado, já oferecido por diversas instituições financeiras de forma ainda não padronizada, que surge como alternativa para consumidores sem cartão de crédito, permitindo o parcelamento de compras; Pix no Cartão de Crédito, também disponível de maneira não padronizada, que cria uma relação ganha-ganha ao permitir que o Pix seja utilizado como instrumento de rentabilização do cartão, com incidência de juros desde a data da transação, sem o “grace period” de uma compra convencional.
- A questão da segurança foi bastante lembrada. Houve problemas e incidentes graves em 2025, mas houve também evoluções. Uma das evoluções foi a ampliação da abrangência e eficácia do Mecanismo Especial de Devolução (MED 2.0 – Resolução BCB 457). Também merece destaque a Resolução BCB 524, que instituiu maior rigor no gerenciamento e monitoramento de Contas de Pagamentos Instantâneos, que são aquelas mantidas pelas Instituições Financeiras junto ao Banco Central para liquidação das transações de Pix em tempo real (PI).
- A Resolução 522/2025 do Banco Central aumentou a estabilidade do sistema na medida em que transferiu às bandeiras a responsabilidade final de garantir o pagamento aos lojistas em caso de falha de emissores.
- Houve forte aceleração de investimentos em cibersegurança, fruto da intensificação dos ataques de hackers no mercado de meios eletrônicos de pagamento direcionados tanto a instituições financeiras quanto a provedores de tecnologia e infraestrutura.
- As discussões sobre o novo trilho de voucher para cartões de benefícios movimentaram grande parte da indústria em 2025. O setor se mobilizou para desenvolver um sistema apartado, não integrante do SPB, autorregulado e com regras para garantir a destinação correta dos programas de benefícios ao trabalhador.
- A regulamentação do ecossistema de benefícios: O decreto 12.712/25 trouxe mudanças estruturais ao PAT e vai alterar a dinâmica competitiva das empresas deste setor.
- A expansão do mercado de “embedded payments”, soluções de pagamentos integradas diretamente em plataformas digitais e apps.
- A publicação pelo BC e CMN da regulação oficial de Banking as a Service (BaaS), com avanço do arcabouço regulatório, impulsionado pela necessidade de maior governança. A medida em que empresas de tecnologia e varejo passaram a oferecer serviços financeiros a partir da licença de bancos parceiros, tornou-se imprescindível estabelecer critérios claros de responsabilidade.
- O segmento de alta/altíssima renda entrou no radar dos emissores e bandeiras com grande prioridade e a disputa pelos clientes do topo da pirâmide está cada vez mais intensa com ofertas de produtos carregados de benefícios e experiências exclusivas.
- A consolidação e expansão do modelo “Free Flow” de pedágios, sobretudo nos estados de SP, RS e MG. Isso tende a impulsionar o segmento de TAGs uma vez que a cobrança fica muito simplificada e conveniente.
- Inteligência Artificial aplicada aos meios de pagamento começa a se tornar uma realidade com potencial de crescimento nos próximos anos. Batizado de “agentic commerce”, agentes de IA passarão a atuar em nome dos clientes, de acordo com parâmetros definidos pelos próprios clientes, para executarem pesquisas, comparações e compras.
- O Open Finance ganhou tração em 2025 e se tornou um instrumento efetivo de personalização de ofertas, integração de serviços financeiros e melhoria da experiência dos clientes. Houve uma integração sem precedentes entre instituições tradicionais, fintechs e novos entrantes e essa interoperabilidade bancária fomentou a competitividade.
- O investimento contínuo dos players no aprimoramento dos seus apps para incluir mais funcionalidades e para melhorar a experiência do usuário. Trata-se de um movimento sem volta de digitalização do relacionamento e conveniência.
- Contas globais ganharam impulso e passaram a ser oferecidas pelas principais instituições financeiras, democratizando o acesso a moedas estrangeiras.
- Crescimento da relevância de benefícios, como cashback e cupons, que se consolidaram com diferenciais competitivos na escolha do meio
de pagamento. - A oferta de parcelamentos no varejo, fora do cartão de crédito, se intensificou com modelos de crediário direto (parceria entre loja e financeira própria ou bancos do mercado) e fintechs especializadas no parcelamento em modelos de 2 partes. Modelo BNPL teve forte impulso em 2025.
- Emissores passaram a oferecer a possibilidade de pagamento das faturas de cartões via Pix com grandes vantagens para ambos os lados: recomposição de limite de forma imediata; a empresa recebe com mais eficiência e reduz custos de liquidação.
- O ano de 2025 representou a consolidação das wallets (Apple Pay, Google Pay, Samsung Pay) como meio de pagamento no varejo físico.
- O endividamento das famílias permaneceu como um ponto de atenção que se refletiu em maior cautela dos emissores na concessão de crédito.
Assimetria Regulatória
Na sua avaliação, bancos e fintechs operam hoje em condições equivalentes do ponto de vista regulatório e tributário? Quais ajustes — se houver — seriam necessários para garantir uma concorrência mais equilibrada no setor?
Nesta questão houve praticamente uma unanimidade entre os respondentes: a assimetria regulatória existe, mas há movimentos concretos no sentido de minimizar e fazer as regras irem aos poucos convergindo. A definição de equivalência de condições regulatórias e tributárias é bastante complexa quando consideramos bancos e fintechs, seus alcances, seus portes e suas atuações.
Mas, talvez mais relevante que estabelecer regulações específicas considerando nomenclaturas – bancos X fintechs, seja estabelecê-las considerando o risco, a escala e a relevância de cada player no mercado.
Houve progressos significativos na regulação do ecossistema de pagamentos, entretanto bancos tradicionais não operam em condições regulatórias e tributárias equivalentes. Os Bancos continuam a ter que atender a requisitos mais elevados de capital, governança, conformidade e tributação. As fintechs se beneficiam de estruturas regulatórias mais leves em termos de exigências prudenciais, de capital, supervisão e obrigações acessórias, podendo se beneficiar de custos estruturais mais baixos.
Todos concordam também que as regras mais flexíveis para fintechs tiveram um papel importante para fomentar a competição, inovação e o surgimento de novos modelos de negócios. Em 2025, por exemplo, o Banco Central registrava mais de 1.200 instituições de pagamento e fintechs autorizadas, frente a pouco mais de 160 bancos. A regulamentação mais flexível permitiu a muitas fintechs prosperarem. Algumas delas cresceram e adquiriram uma quantidade de clientes superior a vários bancos tradicionais. Talvez tenha chegado o momento de ir convergindo para uma harmonização das exigências e adaptar continuamente a regulamentação a cada momento do mercado. O Banco Central tem se mostrado atento a esses movimentos e tem avançado em uma abordagem regulatória visando diminuir gradualmente os “gaps”.
O setor tem evoluído rapidamente, mas há consenso que ainda há espaço para ajustes que promovam uma competição mais justa. O objetivo é equilibrar regras com coerência, segurança, preservando a estabilidade do sistema, sem abrir mão do estímulo à inovação. A assimetria só é aceitável de forma temporária e deve ir gradativamente sendo extinguida, levando em conta o risco e porte de cada segmento. É importante continuar avançando nos ajustes.
Para quem quiser ter uma visão mais ampla e detalhada do assunto, recomendo a leitura do depoimento de Boanerges Ramos Freire que fez uma explicação bastante didática, levando em conta o contexto regulatório atual, as principais assimetrias existentes, os impactos da assimetria sobre o mercado e os ajustes necessários para equilibrar o jogo.
Cartões para a Alta Renda
Nos últimos dois anos, vimos um boom de lançamentos de cartões voltados ao público de alta renda — com mais pontuação, acesso a salas VIP e experiências exclusivas. Como as instituições conseguem viabilizar esses produtos e benefícios? E, olhando para frente, a tendência é de continuidade, intensificação ou desaceleração desse movimento?
Cartões voltados ao segmento de alta renda atravessam um ciclo consistente de expansão nos Estados Unidos, assim como no Brasil. Nosso cliente oculto residente em Los Angeles recebe mensalmente um bombardeio de ofertas por mala direta com welcome bônus atrativos que chegam a 400 mil pontos. A oferta de experiências exclusivas, a exemplo do que mostramos em nossas apresentações do CardIndex (um jantar na quadra do Madison Square Garden na presença de ídolos do basquete do New York Knicks), são a chave para manter a forte conexão com esse cluster do topo da pirâmide.
A rentabilidade do cliente da altíssima renda não se dará necessariamente pelo cartão de crédito em si. Apesar de anuidades elevadas, em muitos casos, se o cliente usar todos os benefícios oferecidos, pode-se chegar a uma situação de “quanto mais ele usa o cartão, mais despesas ele gera para o emissor”. Desta forma, a instituição financeira deve considerar o cartão como porta de entrada para aprofundar o relacionamento total que mantém com seus clientes de maior potencial financeiro e blindá-lo de uma eventual ação da concorrência. Deve levar em conta os investimentos, seguros, operações de câmbio, contas globais, financiamentos e demais serviços financeiros.
Clientes de alta renda são exigentes e difíceis de satisfazer e nem todos pensam igual – daí a necessidade de partir de um produto padrão e personalizar ao máximo o relacionamento e as ofertas. Por serem ultrarricos (target dos novos lançamentos – Visa Privilege, Mastercard Legend e Amex Centurion Black), alguns deles não vão nem valorizar tanto os aspectos de pontuação/milhas, pois esse controle exige tempo, energia e muitas vezes gera frustrações (vamos lembrar que o NPS dos programas de fidelidade é baixo). Mas certamente, existe o cluster dos “milheiros”, que topam pagar altas anuidades esperando um retorno em viagens.
Mas uma coisa que todos os clientes vão valorizar serão as experiências oferecidas ligadas ao entretenimento ou a seus gostos pessoais. As ofertas devem ser hiperpersonalizadas trazendo a sensação de exclusividade (“só para você”). Será preciso investir e conhecer as preferências individuais de cada cliente. Soma-se a isso as salas VIP exclusivas, separadas das comuns e atendimento humano e impecável para eventualidades. Os serviços de concierge costumam ser hipervalorizados pelos emissores e bandeiras, passando a sensação de que tudo será possível.
Desde o lançamento das versões standard de Black, Infinite, The Platinum Amex ocorridas anos atrás, há muito destaque para o serviço de concierge e quando não atende às expectativas, gera frustração. Uma sugestão que apresentamos em nossas “lives” do CardIndex foi de proporcionar um serviço de “fura-fila” no destino das viagens internacionais no momento da imigração. A experiência proporcionada no momento do embarque (helicóptero, sala VIP exclusiva, carro até a porta do avião etc.) está excelente. Entretanto, há uma oportunidade para bandeiras e emissores adicionarem valor agregado no momento da chegada ao destino. Quem conseguir isso marcará um “golaço”.
Pensando no público dos “milheiros”, notamos que produtos já anunciados por alguns emissores para o segmento de altíssima renda capricharam nas regras de acúmulo de pontos (alguns com welcome bônus atrativos e pontuação acima de 5 pontos por dólar nas compras). Porém, com relação ao resgate, seguiram a regra normal de outros cartões e mantiveram até deflatores para alguns parceiros. A exceção ficou por conta do American Express Black Centurion, na versão emitida pelo Bradesco, que tem uma ampla rede de parceiros aéreos (incluindo diversas companhias internacionais), sem deflator de transferência.
Enfim, esse movimento de investir em clientes de altíssimo poder aquisitivo está apenas começando e tende a continuar. Segundo dados fornecidos pela Mastercard, o 1% mais rico concentra 27,4% da renda nacional. São clientes escassos, disputados por todas as instituições financeiras, pelo potencial de relacionamento que vai além do cartão e pelo elevado lifetime value (LTV) ao longo de sua jornada como cliente do banco.
O cartão em si será um poderoso instrumento para atrair novos clientes de alto poder aquisitivo para o banco. Para os clientes que já estão dentro de casa, será ferramenta de fidelização, relacionamento e retenção.
Após esse “boom” inicial de lançamentos, é possível imaginar que haverá ajustes e adequações dos produtos nos anos seguintes, de maneira adequá-los ao perfil dos clientes de cada instituição e procurar soluções que mantenham o equilíbrio econômico-financeiro dos produtos.
Inteligência Artificial
A inteligência artificial é tratada como o próximo grande vetor de competição no setor. Ainda assim, a maior parte das instituições tem usado a tecnologia sobretudo para ganhos de eficiência interna. Cite exemplos concretos de áreas em que a IA ainda não é utilizada em sua plenitude e poderia ser mais bem aproveitada pelos Meios Eletrônicos de Pagamento?
Todo o mercado está absolutamente convencido de que a adoção efetiva da IA pode trazer enormes ganhos de produtividade em todos os setores em que ela estiver presente. Este assunto ganhou prioridade e está no radar de todos os players. Entretanto, na prática, a implementação não é tão simples e imediata e a obtenção de ganhos reais exige tempo, ajustes, maturidade, disciplina, ética, métricas e supervisão humana constante.
A IA já é bastante utilizada em eficiência operacional e está presente em áreas como atendimento a clientes, prevenção a fraudes, análise de crédito, cobrança etc. Mesmo nestas áreas, o potencial de evolução ainda é gigantesco e merece toda atenção. Segundo pesquisa da Febraban de 2025, 80% dos bancos já utilizam IA e IA generativa com ganhos médios de 11,4% em eficiência. Entretanto, até o momento, a IA foi utilizada prioritariamente para melhorar processos para as empresas, sem necessariamente melhorá-los para o cliente final. Um dos desafios do momento é acelerar a adoção da IA e um dos grandes potenciais é utilizá-la para antecipar as necessidades e melhorar a oferta de valor para os clientes.
Os participantes desta edição foram estimulados a citar exemplos de grande potencial de exploração da IA em diversas áreas:
- Hiperpersonalização de campanhas de ativação para cardholders baseada em seus hábitos de consumo.
- Comunicação individualizada com cada cliente destacando benefícios personalizados e relevantes para cada cardholder.
- Precificação inteligente e individualizada, além de ofertas de produtos financeiros de acordo com o perfil e momento de cada cardholder.
- Acompanhar o ciclo de vida de cada cliente, identificando momentos de cautela, momentos de expansão de relacionamento e até sugerir ação de prevenção ao “churn”.
- Viabilizar jornadas de pagamento altamente individualizadas, podendo sugerir o método de pagamento mais adequado para cada contexto de compra.
- Viabilizar uma gestão de crédito e risco dinâmica, ajustada em tempo real através de padrões de consumo, geolocalização, ciclo de vida do cliente e por dados comportamentais de uso de meios de pagamento.
- Estabelecer limites de crédito dinâmicos variando de acordo com a sazonalidade, cenário macroeconômico, datas comerciais etc. Com o Open Finance isso pode atingir ainda maior precisão.
- Na prevenção às fraudes, além de atuar na detecção de transações suspeitas, a IA pode antecipar padrões de fraude ainda não materializados.
- Sob a ótica das credenciadoras, pode-se imaginar uma otimização automática de taxas para os lojistas, ajustando MDR conforme perfil de risco e volume.
- Sob a ótica do lojista viabiliza um roteamento inteligente de transações através da escolha do adquirente, bandeira ou trilha (Pix, débito, crédito), em tempo real considerando custo, taxa de aprovação e latência.
- Do lado dos pequenos negócios, a IA pode evoluir para oferecer recomendações práticas sobre fluxo de caixa, conciliação, gestão de vendas e planejamento financeiro – áreas críticas para PMEs.
- Por fim, um dos temas mais discutidos do momento é o chamado agentic commerce, no qual agentes de inteligência artificial assumem a jornada de compra — da pesquisa e comparação de produtos e preços à negociação, pagamento e finalização da transação. Ainda em estágio inicial, o modelo tende a ganhar tração nos próximos anos.
Como podemos observar, o potencial de evolução é gigantesco e o setor de Meios Eletrônicos de Pagamento se prepara para um ciclo de grandes transformações liderado pela IA. Quem sair na frente terá grandes diferenciais competitivos.
Cartões de Benefícios
As mudanças estabelecidas pelo decreto 12.712/25 representam uma “interferência direta” ou modernizam o modelo de negócios das empresas de benefícios? Comente sob o ponto de vista das empresas de benefícios, das credenciadoras e dos clientes (tanto as empresas contratantes do benefício quanto os usuários finais). Quem ganha e quem perde com as novas regras?
Decreto 12.712/25 assinado pelo Presidente Lula, no dia 11 de novembro de 2025, determinou novas regras para o funcionamento do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) mudando profundamente a dinâmica do setor de Cartões de Benefícios.
As principais alterações, que devem ser implantadas em até 90 dias a partir da assinatura do decreto, são:
- O MDR (Merchant Discount Rate) passa a ter um teto de 3,6% sobre as transações dos estabelecimentos.
- A tarifa de intercâmbio fica limitada a 2%.
- O prazo de repasse dos valores aos restaurantes/supermercados deverá ocorrer em até 15 dias após a transação. Atualmente, o pagamento é feito em cerca de 30 dias.
- Em até 180 dias, os arranjos de pagamento para sistemas que atendam mais de 500 mil trabalhadores deverão ser abertos.
- A interoperabilidade entre bandeiras, que garante que os cartões de benefícios sejam aceitos em qualquer restaurante ou supermercado, deverá estar implantada em até 360 dias.
- As medidas que proíbem práticas comerciais abusivas – como deságios, descontos e benefícios indiretos – têm vigência imediata.
Segundo o Governo, o decreto tem por objetivo ampliar a concorrência no setor e reduzir os preços para os consumidores. Utilizou-se até o argumento de que se conseguiria reduzir a inflação do país com as medidas. Houve tentativa de construir um consenso com todas as empresas do setor antes de editar o decreto, mas isso não foi possível e as negociações não avançaram. Após a publicação do decreto, Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) se disse surpreso com a proibição do arranjo fechado uma vez que, na lei, os dois modelos estão permitidos e isso certamente vai ser questionado judicialmente.
Nossos respondentes deste relatório, em sua grande maioria, reconheceram que havia necessidade de implantar medidas no sentido de estimular a competição entre as empresas do mercado de cartões de benefícios, bem como modernizar as regras do PAT.
Entretanto, para Alexandre Rappaport, Diretor da Ticket no Brasil, “a forma como as mudanças vêm sendo implantadas traz riscos, insegurança jurídica e impactos relevantes ao funcionamento do ecossistema do PAT. Alterações estruturais sem regras claras de transição e previsibilidade podem afetar empresas de benefícios, estabelecimentos, empregadores e usuários finais”.
Para Simone Marques, CEO da VR, “o desafio é encontrar um equilíbrio que modernize o mercado sem comprometer o propósito social do PAT e a segurança alimentar do trabalhador. Ao impor um arranjo aberto, o decreto transforma benefícios alimentares em meios de pagamento. Se não houver fiscalização sobre as redes há risco de utilização para outras finalidades”.
Thomas Pillet, CEO da Up Brasil, fez considerações relevantes sobre o vale-alimentação. “Reduzir o prazo de repasse aos supermercados, que já trabalham com prazos elásticos junto a seus fornecedores de 60 a 90 dias, ou seja, com capital de giro muito favorável, parece resolver um problema que não existia”. Em compensação, isso afeta drasticamente o modelo de negócios dos operadores do PAT e suas capacidades de inovar.
Enfim, está claro que o decreto representa uma forte intervenção governamental no mercado de Empresas de Benefícios. Os players tradicionais terão grandes desafios para compensar perdas de receitas e terão que se reinventar, aproveitando-se de sua força de empresas detentoras de grandes bases de clientes e forte capacidade de investimento em tecnologia e inovação. As credenciadoras vão se beneficiar com a expansão do mercado com o final dos arranjos fechados e interoperabilidade. Os estabelecimentos comerciais vão se beneficiar de taxas mais baixas e melhoria de margens, uma vez que não deverão repassar os ganhos para os clientes finais por meio de redução de preços. As empresas contratantes (RHs) terão uma ampla gama de fornecedores para optar e o critério de seleção não poderá levar em conta deságios, rebates ou benefícios indiretos. O usuário final terá uma ampla variedade de estabelecimentos à disposição para usar o benefício refeição/alimentação em função da interoperabilidade. As novas operadoras deste mercado – iFood, Caju, Flash, Swile etc. comemoram o decreto que amplia a competição e o mercado potencial de atuação.
Entretanto, valem todas as ressalvas feitas pelos executivos do setor da importância de não desvirtuar a finalidade do benefício. Ações judiciais e obtenção de liminares contra o decreto, por parte de empresas tradicionais que se sentem prejudicadas começam a acontecer.
Open Finance
Como o Open Finance pode ajudar os players a obterem a principalidade e o engajamento dos seus clientes? Numa escala de 0 a 10, em que patamar estamos em termos de uso de todo o potencial do sistema? E em que horizonte de tempo o uso pleno pode acontecer?
A portabilidade do crédito via Open Finance entra em vigor na semana de fechamento deste comentário (1ª semana de fevereiro). Ela vai permitir que consumidores transfiram seus empréstimos de forma 100% digital, com processo mais ágil e padronizado. Ela é vista como uma etapa muito importante na consolidação do Open Finance na medida em que permitirá aos clientes fazerem a solicitação diretamente pelo app das próprias instituições financeiras com trocas padronizadas de informações e jornada digital. O prazo para a efetivação da portabilidade será de apenas três dias úteis e as comparações das ofertas serão simples e transparentes, permitindo aos clientes verificarem quanto estão economizando com a proposta do concorrente. A instituição original pode fazer uma contraproposta e caso não a faça em dois dias a portabilidade será consumada.
Os respondentes deste relatório consideram o Open Finance um instrumento extremamente importante para democratizar o acesso dos clientes às melhores ofertas financeiras, reduzindo a assimetria de informações entre os agentes financeiros. O Open Finance cria condições para que a principalidade não seja definida por “onde está a conta”, mas por quem consegue organizar a vida financeira do cliente com eficiência, inteligência e boa relação custo-benefício. Permite uma visão 360º dos clientes, ofertas hiperpersonalizadas de produtos financeiros e coloca o consumidor como protagonista.
Trata-se de uma das mais relevantes inovações da agenda do Banco Central e vai fomentar a inovação e a maior competição entre os players do setor. O desafio para conquistar a principalidade passa por transformar dados em inteligência e serviços relevantes para os clientes.
Do ponto de vista de sua adoção, o avanço é relevante. Estima-se em mais de 100 milhões de consentimentos ativos no Brasil, mostrando uma adesão relevante, neste momento em que completa cinco anos de lançamento. Vale lembrar que o Brasil já é considerado uma referência global com uma base técnica e regulatória bastante robusta. Do ponto de vista do uso do seu pleno potencial, a maioria dos respondentes ficou numa faixa de 4 a 6 numa escala de 0 a 10. Ou seja, é unânime que há um grande espaço para evoluir em termos da maturidade da ferramenta. No campo das empresas, o potencial de crescimento é significativo, uma vez que poucas organizações ainda aderiram a esse modelo.
Apesar do potencial, ainda há desafios ligados à percepção do consumidor, que muitas vezes não associa o Open Finance à benefícios diretos. A comunicação por parte dos agentes precisará ser intensa e educativa enfatizando segurança e vantagens que poderão obter. O Open Finance pode ter um papel relevante na educação financeira dos clientes.
Estudos mostram que o brasileiro mantém relacionamento, em média, com cinco instituições financeiras. Isso, por si só, já revela o grande potencial de evolução e uso da ferramenta. A maioria dos entrevistados acredita que num horizonte de 3 a 5 anos estaremos próximos do potencial pleno do sistema.