Henrique Casagrande
VP e COO
Fatos Relevantes de 2025
Um dos fatos que mais marcaram 2025 foi a ocorrência de episódios relevantes de indisponibilidade nas grandes infraestruturas globais de tecnologia. Esses eventos tiveram impacto sistêmico, afetando diferentes empresas e serviços ao mesmo tempo, e colocaram o tema da resiliência operacional no centro da agenda de forma definitiva. Arquiteturas multirregião, estratégias multi-cloud e desenho de sistemas tolerantes a falhas deixaram de ser apenas boas práticas para se tornarem elementos estratégicos para qualquer operação de pagamentos.
Outro destaque importante foram os episódios de fraude observados ao longo do ano, o que consolidou a percepção de que a segurança deixou de ser uma camada adicional para se tornar um componente central no desenho de produtos e fluxos financeiros. Monitoramento mais sofisticado, prevenção desde o onboarding, atenção aos movimentos de cash-in e cash-out e estruturas de governança mais robustas passaram a fazer parte do core das operações. Do ponto de vista de quem opera infraestrutura crítica, torna-se essencial manter um olhar 360° e integrado sobre o ecossistema de cibersegurança e prevenção a fraudes para que, conforme os fraudadores ganham força com a IA e o uso de dados, possamos garantir que a tecnologia esteja dois passos à frente nas soluções de defesa.
Nesse contexto, vimos também a alta movimentação regulatória, visando maior proteção dos usuários do sistema financeiro, elevando o nível de exigência sobre todo o ecossistema. A Receita Federal tornou obrigatória a visibilidade dos valores consolidados movimentados por clientes quando ultrapassam determinados limites mensais, inclusive via Pix. Vimos um avanço claro na robustez regulatória, com maior foco em rastreabilidade, responsabilidade sobre cadeias de prestação de serviços financeiros e proteção do usuário. Esse movimento contribui para tornar o mercado mais sólido e confiável, ao mesmo tempo em que amplia a responsabilidade das empresas que operam infraestrutura crítica.
Por fim, 2025 também foi marcado pelo avanço consistente dos pagamentos instantâneos. O Pix seguiu evoluindo, ampliando casos de uso e reforçando seu papel como referência global, ao mesmo tempo em que modelos semelhantes ganharam espaço em outros países da América Latina. Aqui, vale destacar o lançamento do Bre-B, sistema de pagamentos instantâneos colombiano lançado na metade do ano – a Dock, inclusive, opera a tecnologia por trás de um dos cinco bancos habilitados para o Bre-B, justamente apoiando-se no know-how brasileiro acumulado ao longo dos anos.
Mais do que um meio de pagamento, os sistemas instantâneos passaram a se consolidar como trilhos regionais para novas jornadas financeiras, integrando pagamentos, crédito e serviços de forma cada vez mais fluida.
A Dock em 2025/26
Da perspectiva da Dock, uma empresa com 26 anos de atuação no mercado de meios de pagamento, 2025 foi um ano que evidenciou o nível de maturidade e complexidade que o setor atingiu.
Hoje, a Dock opera a partir de duas grandes unidades de negócio. De um lado, como uma empresa de tecnologia SaaS, com plataforma cloud native, altamente resiliente e escalável, que oferece uma das infraestruturas de pagamentos e banking mais completas da América Latina, já presente em 11 países. De outro, é pioneira no modelo de banking as a service no Brasil, por meio de uma operação regulada pelo Banco Central, viabilizando a entrada de novos players no sistema financeiro com responsabilidade regulatória, segurança e solidez operacional.
Nesse contexto, ficou ainda mais claro o impacto de um cenário macroeconômico desafiador na atuação das empresas brasileiras em 2025. Juros elevados, aumento da inadimplência e maior pressão sobre portfólios de crédito exigiram das instituições uma gestão muito mais rigorosa de risco e capital. Em paralelo, foi também um ano em que todo o mercado passou a olhar de forma ainda mais profunda para a rentabilidade e sustentabilidade dos modelos de negócio.
Para a Dock, isso se traduziu em um ano de organização da base para crescer com mais qualidade, com foco claro em rentabilidade e eficiência operacional. Avançamos na execução de migrações estruturais relevantes, no fortalecimento da nossa plataforma e na intensificação do uso de tecnologia e inteligência artificial na operação.
Além disso, foi um ano importante de consolidação no Brasil e de forte expansão na América Latina, com crescimento expressivo de cerca de 90% ano contra ano, reforçando nossa presença regional e nossa capacidade de operar diferentes mercados.
Avançamos ainda na construção de parcerias estratégicas globais, como Ant International, AWS e Huawei, e no fortalecimento de frentes que vinham sendo apostas e ganharam tração ao longo do ano, como crédito e soluções multibenefícios.
Ao longo de 2025, crescemos de forma relevante em volume de cartões e TPV em cartões emitidos, com os portfólios consignados tendo uma representatividade importante para o negócio. Existe uma avenida clara de crescimento nesse segmento, para a qual a Dock está completamente preparada. No campo dos multibenefícios, a nova regulamentação do PAT vem alterando as regras do jogo e exige estruturas mais sofisticadas de ledger multi saldo — uma frente para a qual a Dock também já está totalmente equipada.
Olhando para 2026, nossa expectativa é dar continuidade a esse movimento, com foco em expansão, em crédito como uma avenida relevante de crescimento e na evolução das jornadas de pagamento e cobrança, especialmente a partir de Pix Automático, Open Finance e modelos recorrentes. Mais do que lançar produtos isolados, seguimos direcionados a construir uma infraestrutura cada vez mais robusta, flexível e preparada para sustentar novos modelos de negócio em escala.
Em linhas gerais, vemos muitas avenidas de crescimento abertas no setor de pagamentos para 2026. Nosso caminho é continuar investindo em plataforma e em soluções que simplifiquem o universo financeiro para nossos clientes, apoiando sua evolução em um mercado cada vez mais dinâmico e exigente.
Cartões para a Alta Renda
Nos últimos anos, os cartões premium deixaram de ser apenas um meio de pagamento com benefícios e passaram a integrar estratégias mais amplas de relacionamento, que visam a atração e a retenção de um cliente de alta renda, que geralmente tem que ter um valor investido com a instituição.
Em geral, esses produtos se viabilizam não de forma isolada, mas como parte de um ecossistema que envolve conta, investimentos, crédito, seguros, experiências e serviços. É esse conjunto que sustenta a proposta de valor, tanto do ponto de vista econômico quanto da percepção do cliente.
Ao mesmo tempo, esse movimento elevou significativamente o nível de exigência sobre a base operacional e tecnológica das instituições. Portfólios voltados à alta renda pressupõem jornadas sem fricção, autorizações extremamente rápidas, alta disponibilidade e camadas sofisticadas de prevenção à fraude. Não adianta oferecer experiências exclusivas se, no momento crítico, o cliente tiver problemas que prejudicam a experiência – se o cartão não passa, se ele sofre fraude, todos os diferenciais da sua oferta perdem o valor.
Nesse sentido, temas como resiliência, redundância, arquitetura multi-cloud e continuidade de negócios se tornaram parte essencial da proposta de valor desses produtos. Temos muitos clientes com esta oferta na Dock porque, além de oferecermos uma arquitetura modular e 100% cloud native, multi-cloud, somos referência em alta disponibilidade. Nosso processo de autorização teve 100% de disponibilidade em 2025, uma solução que traz resiliência e confiabilidade aos nossos clientes que operam portfólios tão exclusivos.
Olhando para frente, a tendência é de continuidade desse movimento, mas com um mercado cada vez mais racional. Mais do que uma corrida por benefícios, os emissores tendem a buscar diferenciação sustentada, conectando cartões premium a ofertas financeiras mais completas, personalização e excelência operacional.
Inteligência Artificial
A inteligência artificial já vem sendo amplamente utilizada no setor, sobretudo para ganhos de eficiência em operações, atendimento, suporte e desenvolvimento. Esse movimento foi fundamental, mas ainda representa apenas parte do potencial da tecnologia.
O próximo grande salto está em como a IA passa a ser usada de forma mais profunda no desenvolvimento de produtos e na tomada de decisão. Em meios eletrônicos de pagamentos, vejo dois caminhos para atuação imediata. O primeiro é a prevenção a fraudes, já que muitos players do mercado ainda atuam de forma reativa. Aqui, a IA pode antecipar padrões, reduzir falso-positivo e proteger conversão. Isso já está sendo feito por aqueles que estão na vanguarda do mercado, mas há um espaço enorme para avançar, por exemplo, em modelos mais preditivos de prevenção a fraudes; em crédito mais dinâmico, com avaliações e limites ajustados de forma contínua; e no uso de IA para análise de tendências, prototipagem e construção de novas soluções.
Especialmente quando combinada com dados transacionais, alternativos e consentidos, a inteligência artificial tende a ganhar um papel central em decisões em tempo real, orquestração de pagamentos e personalização de jornadas. Mais do que otimizar processos existentes, a oportunidade está em utilizar a IA para criar novos modelos de serviço, acelerando ciclos de inovação e elevando o nível de sofisticação dos produtos financeiros.
O outro caminho está na concessão de crédito, que pode ser amplamente aprimorada com análise de dados. Neste sentido, a Dock tem uma atuação pioneira no país: firmamos uma parceria com a Ant International para regionalizar soluções da Bettr, vertical focada em concessão de crédito para micro e pequenas empresas.
O primeiro passo da nossa parceria, que já estamos rodando em testes de ambiente produtivo, é disponibilizar ao mercado brasileiro o motor de crédito da Bettr: o Ant Credit Engine, que usa inteligência artificial para analisar dados alternativos de forma preditiva. Estamos falando aqui de dados transacionais, dados de open finance, de boleto, DBA, contas de consumo, tudo isso sendo processado em tempo real para a tomada de decisão.
Neste sentido, o motor cruza diversos dados – captados com o consentimento do cliente – para inferir renda e capacidade creditícia, de acordo com o perfil sendo avaliado no momento da concessão. O trabalho dos dados feito dentro deste motor, que é embasado por inteligência artificial, concentra grande parte do valor agregado desta solução.
Cartões de Benefícios
As mudanças trazidas pelo novo decreto representam, ao mesmo tempo, uma modernização relevante do modelo e um período de adaptação para o setor. A evolução regulatória – que amplia transparência, competição e clareza de regras – tende a fortalecer o ecossistema no longo prazo, mas também exige ajustes importantes de quem opera nesse mercado, e é essencial termos um movimento de diálogo para equilibrar e conciliar visões.
Do ponto de vista das empresas de benefícios, o cenário passa a demandar revisão de modelos, maior eficiência operacional e propostas de valor mais claras, em um ambiente com maior abertura, interoperabilidade e pressão competitiva. Para as credenciadoras, o movimento amplia a complexidade técnica e regulatória, mas também cria oportunidades associadas à expansão da aceitação e à construção de novos arranjos.
Para as empresas contratantes, há potencial de mais transparência, maior possibilidade de escolha e condições comerciais mais equilibradas. E, para o usuário final, a expectativa é de benefícios ligados à ampla aceitação, portabilidade e experiências mais simples, com maior concorrência entre ofertas.
Em síntese, é um movimento que tende a favorecer o mercado no médio e longo prazo, ainda que, no curto prazo, imponha um esforço relevante de adaptação para diferentes players.
Open Finance
A principalidade pode ser uma consequência do Open Finance. Mas, neste ponto, entendo que a discussão vai muito mais além. Mais do que uma ferramenta para aumentar a principalidade, o Open Finance representa uma mudança de paradigma: ele é, antes de tudo, sobre empoderamento e soberania do usuário sobre seus próprios dados. Trata-se de permitir que as pessoas decidam, de forma consciente, como e com quem querem compartilhar informações que pertencem a elas.
A partir desse princípio, abrem-se oportunidades importantes para o mercado. O Open Finance permite jornadas de pagamento mais fluidas, propostas mais adequadas ao perfil real do cliente e novos modelos de relacionamento. Quem conseguir entender bem esse ecossistema poderá utilizar essas jornadas como parte de uma estratégia mais ampla de relacionamento e, como consequência, fortalecer sua posição junto ao cliente.
Vejo ainda um vasto potencial para uma adoção bem mais ampla e integrada, especialmente à medida que o Open Finance se conecta de forma mais direta a pagamentos recorrentes, Pix Automático e crédito, ajudando a substituir fluxos ainda muito baseados em processos legados – como o boleto – e abrindo espaço para uma transformação relevante desse cenário, permitindo jornadas de pagamento mais fluidas, automatizadas e eficientes, capazes de destravar um salto significativo na forma como cobranças recorrentes são estruturadas e executadas no mercado.