Daniel Monteiro
Diretor de seguros, conta e cartão
Fatos Relevantes de 2025
Consolidação e evolução do Pix ficaram evidentes em 5 de dezembro, quando dados do Banco Central apontaram que o Pix ultrapassou a marca de 300 milhões de transações realizadas em um único dia. Mais do que a instantaneidade, esse resultado reforça a centralidade da experiência do cliente como fator decisivo na escolha da instituição financeira, com aplicativos e carteiras digitais assumindo papel estratégico na jornada de pagamento. A evolução seguiu com novas funcionalidades, como o Pix Automático para pagamentos recorrentes.
Outro fator de destaque foi o avanço decisivo da inteligência artificial no mercado de cartões, impulsionando a prevenção de fraudes com modelos que analisam mais de 1 trilhão de dados em menos de 50 milissegundos e elevam a proteção em até 300% — como relatado por players globais como Mastercard e Visa. Além disso, o mercado evoluiu suas jornadas digitais, com IA aplicada à melhoria de fluxos, redução de rechamadas e aumento de resolutividade, reforçando segurança, personalização e experiência em um ano em que o setor também avançou em tokenização, biometria e pagamentos em tempo real.
E, em terceiro, o endurecimento regulatório para fintechs. O Banco Central passou a exigir autorização prévia para o início das operações de Instituições de Pagamento, encerrando a lógica do “crescer primeiro, regular depois”. O movimento elevou os custos de compliance e acelerou a consolidação por meio de fusões e aquisições, nivelando as expectativas prudenciais.
O BV em 2025/26
2025 foi um período de resiliência e crescimento para o banco BV. Em um ambiente de juros elevados, o BV comprovou a solidez do seu modelo de negócios, alcançando lucro líquido de R$ 1,4 bilhão no acumulado dos nove primeiros meses, +18,6% em relação ao mesmo período de 2024, e mantendo a rentabilidade (ROE) em 15,0%, patamar recorde que reflete disciplina na gestão de riscos e diversificação de receitas. Consolidamos a liderança histórica em financiamento de veículos leves usados e expandimos de forma robusta em motos, pesados e empréstimos com garantia de veículo.
Ao longo do ano, evoluímos o aplicativo, com produtos e serviços mais simples, intuitivos e seguros, e aprofundamos uma cultura data driven, com uso consciente da IA para elevar a experiência, a eficiência e a robustez operacional.
Em cartões, o BV avançou com uma nova plataforma mais moderna, jornadas digitais aprimoradas, sub-home 2.0 personalizada, evolução em limites e crédito com Open Finance, integração crescente com wallets e melhorias significativas na experiência e no NPS.
Para 2026, esperamos uma desaceleração gradual do crescimento econômico, tanto doméstico quanto global. Vemos um cenário positivo para o mercado de veículos e acreditamos que o pico da inadimplência tenha ocorrido em 2025, abrindo espaço para melhora nas condições de crédito. A redução da Selic ao longo do ano deve favorecer a expansão do crédito. Nosso foco estará na expansão qualificada da carteira em canais digitais, no fortalecimento do relacionamento para conquistar principalidade e na diversificação além do financiamento automotivo, avançando como um organizador financeiro completo para os clientes.
Assimetria Regulatória
Bancos e fintechs ainda não operam sob equivalência plena regulatória e tributária. Instituições tradicionais, como o BV, estão sujeitas a regras prudenciais mais rigorosas, com exigências de capital e custos de observância superiores; as fintechs, historicamente, se beneficiaram de um arcabouço mais leve, o que impulsionou seu crescimento. Para uma concorrência equilibrada, é desejável avançar no princípio de “mesma atividade, mesmo risco, mesma regulação”, com proporcionalidade por risco e porte, inclusive para fintechs e big techs com relevância sistêmica. A interoperabilidade e a padronização, impulsionadas pelo Open Finance, são cruciais para que a competição se dê por eficiência e inovação, e não por arbitragem regulatória.
Cartões para a Alta Renda
Os cartões voltados ao público de alta renda se diferenciam pela oferta de experiências e benefícios desenhados para um perfil cada vez mais exigente, que valoriza altos níveis de personalização, exclusividade e atenção por parte das instituições. Nesse contexto, o cartão deixa de ser um produto isolado e passa a atuar como hub de um ecossistema mais amplo, conectando soluções financeiras e não financeiras de forma integrada. A sustentabilidade desse modelo está apoiada na rentabilidade da visão do cliente, nas taxas de intercâmbio mais elevadas, receitas de anuidade e, principalmente, em um alto volume de gastos por cliente. A viabilização desses portfólios vem com a venda de outros produtos e serviços bancários associados e, consequentemente, a principalidade do cliente.
A tendência é de continuidade e intensificação desse movimento, com ofertas que integram de forma crescente os mundos físico e digital, por meio de lounges, experiências premium e benefícios sob medida. Iniciativas como o lançamento dos cartões Mastercard World Legend e Visa Infinite Privilege exemplificam essa evolução, que exige, contudo, segmentação criteriosa do público elegível, de modo a preservar a sustentabilidade econômica e o caráter distintivo que sustenta a proposta de valor dos programas premium.
Inteligência Artificial
A IA já se consolidou como importante alavanca de eficiência no setor financeiro, especialmente na automação de processos, na prevenção a fraudes e na otimização operacional. Ainda assim, o potencial da tecnologia nos meios eletrônicos de pagamento está longe de ser explorado em sua plenitude.
Um primeiro vetor relevante de evolução está na hiperpersonalização da experiência do cliente. A IA permite avançar para além de ofertas genéricas, viabilizando jornadas de pagamento altamente individualizadas. Isso inclui a capacidade de antecipar necessidades do consumidor, sugerindo o método de pagamento mais adequado para cada contexto de compra ou apresentando opções de crédito e parcelamento de forma preditiva e contextual, a partir do comportamento de consumo e do momento da jornada.
Outro campo com grande espaço para evolução é a análise de crédito comportamental em tempo real. Em vez de depender exclusivamente de dados históricos e modelos estáticos, a aplicação de IA possibilita a incorporação de um volume massivo de dados alternativos e transacionais, construindo perfis de risco dinâmicos e mais precisos. Esse avanço tende a viabilizar uma concessão de crédito mais justa e inclusiva, com taxas e limites ajustados ao comportamento financeiro real do cliente.
Por fim, vejo um enorme potencial no A2A: nas compras online, o modelo agent-to-agent funciona quando um agente de IA autorizado pelo usuário envia mandatos digitais criptografados para outro agente, do lojista ou do provedor de pagamentos, que valida a intenção, monta o carrinho e executa a transação de forma segura e auditável, usando protocolos como o AP2 e comunicação A2A. Essa lógica pode mudar estruturalmente a forma como os produtos são precificados e como fazemos compras.
Cartões de Benefícios
O Decreto 12.712/25 representa uma modernização necessária ao modelo das empresas de benefícios, com mais concorrência e transparência — longe de ser “interferência direta”.
- Empresas de benefícios: o fim da exclusividade de redes via interoperabilidade eleva a competição e exige adaptação de oferta e operação.
- Credenciadoras: ganham ao aceitar mais bandeiras e ampliar o alcance nas maquininhas.
- Clientes (empresas e trabalhadores): as contratantes precisam de gestão atenta para garantir portabilidade; os usuários finais ganham liberdade de escolha, com vale aceito em rede mais ampla.
- Saldo: trabalhadores e estabelecimentos menores tendem a ganhar; grandes players com arranjos fechados e taxas elevadas perdem espaço em um ambiente mais competitivo e transparente.
Open Finance
O Open Finance é um instrumento estratégico para que as instituições financeiras conquistem a principalidade e aumentem o engajamento dos clientes. Com o consentimento do usuário, ele oferece uma visão completa e integrada da vida financeira, criando oportunidades para experiências mais relevantes. Com acesso a esses dados, as instituições podem oferecer produtos e serviços altamente personalizados e com condições mais vantajosas, como crédito adequado ao perfil, investimentos mais rentáveis e soluções de gestão financeira integrada, gerando valor e fortalecendo o relacionamento com o cliente.
Apesar do avanço, o uso do potencial do Open Finance ainda é limitado: numa escala de 0 a 10, estamos em torno de 4 ou 5. O Brasil é referência global, com 110 milhões de consentimentos registrados em outubro de 2025 segundo o Bacen, mas a aplicação prática ainda se concentra na visualização de dados para ofertas de crédito. O verdadeiro potencial está na iniciação de pagamentos e na criação de novos modelos de negócio, áreas que ainda estão em fase de amadurecimento. Grande parte dos usuários ainda desconhece algumas funcionalidades, que precisam ser amplamente comunicadas e aplicadas em casos de uso no futuro próximo.
O uso pleno do potencial do Open Finance deve ocorrer em um horizonte de 3 a 5 anos. Com a evolução regulatória, o aumento da confiança do consumidor e o avanço tecnológico, espera-se um ecossistema mais robusto e casos de uso cada vez mais sofisticados.